Não dito, mal dito

Queria dizer tantas coisas!
Celebrar minhas pequenas vitórias do dia a dia,
Chorar a bile que me toma a garganta,
Cair nos fundos que me tomam a cama.

Queria dizer dos sorrisos
tortos e sem toques que ocupam a galeria
E das histórias sem narrativa que circundam minha cabeça.

Queria dizer tudo aquilo que não sei
Ter à ponta da língua
Os segredos que me tocam.

Numa única piada
Expressar minha alegria.
Esconder jamais meus sorrisos bobos,
Fazer risada com o que me mata.

Meus carinhos são restritos
E meus medos espalhados.

Me dói dizer
Que queria muitas coisas
Mas a cola em meus lábios
Paralisam as palavras.

Meus lábios prensados em uma única linha.

Minha cabeça divaga 
Entre o Sábado e o Domingo:
Eu, entre círculos e truncadas,
Você, dormindo.

16/05/2021




Dia 03

 O alto da construção não lhe parecia tão alto. De lá, conseguia ver contra as luzes dos postes o ar denso e turvo que se aproximava do asfalto. Seu corpo lhe parecia insignificante frente as serras de prédios que se somavam à sua frente. Mas ainda sim muito perto do chão. Nessa noite, não havia escolhido um dos milhares de arranha-céus que tomavam o horizonte, como fazia nas outras noites.  Havia escolhido uma casa em construção, com um total de 5 andares espaçosos e amplos. Jajá sabia que essa casa devia ser de alguém bem rico, com provável influência dos altos magnatas da indústria dos minérios. Pensou se estaria incomodando. Mas tal qual as outras noites, suas pernas se moviam sozinhas. 
    Subiu no telhado. Havia apenas uma pequena estrutura de madeira onde conseguia apoiar seus pés. O resto do teto ainda permanecia abstrato e imaterial, no aguardo de concretos e estruturas e fundações bem estabelecidas para ser finalmente completado. O pequeno quadrado de teto que havia, servia apenas como ponto de apoio para a lona que recobria toda a construção. Jajá pensou que provavelmente, aquele concreto não havia estabilidade nenhuma. O pensamento fez com que vertigens lhe subissem o estômago e ele engoliu em seco. Olhou para baixo. Sentiu o peso de toda a gravidade do mundo atuar em seu intestino. O alto da construção de repente lhe pareceu, de fato, muito alto. Mas a vertigem também estranhamente lhe instigava para a beirada.  Experimentou um pé para fora da estrutura. Seu sapato de couro ali pairou, sendo o único foco de sua visão. O fundo da construção lhe parecia um grande borrão. Voltou com o pé para o madeirite. Respirou fundo. O coração a mil. Piscinas de suor lhe empapavam a blusa social. Passou a mão no cabelo bem lentamente. Com cuidado, desceu pela lateral do prédio.
    Ainda aéreo, quase não notou que alguém lhe assoviava quando chegou em chão firme. Um homem de uns 25 anos se encontrava recostado em um dos cantos da obra. Uma barba de semanas lhe ocupava o rosto, as roupas lhe serviam de forma estranha, como se não fossem feitas para moldar seu corpo. Segurava em sua mão um grande cachimbo fedorento, que quase fez subir lágrimas aos olhos de Jajá. O trabalhador logo torceu o nariz. Nunca conseguiu entender como rapazes vigorosos e produtivos eram capazes de declarar falência a si mesmos dessa forma. Quase conseguia ver com seus olhos cansados por detrás das roupas amarrotadas e pele manchada. Os órgãos se deterioravam. Os ossos rachavam aos poucos. O homem apontou com o cachimbo para o alto.

    - Me diga meu homem, que você fazia lá?
    - Eu...que lhe importa?
    - Nada me importa. Mas a pergunta permanece. 
    -.
    - Bem, de qualquer forma, você pretende voltar por aqui?
    - Não sei.
    -Se voltar, faça favor de me avisar para que eu feche os olhos.
    -Fechar os olhos? 
    - Você não é o primeiro que vem aqui não. Os altos de construção sempre chamam os encarcerados, os libertos e os suicidas. Vez ou outra, consigo adivinhar a qual categoria cada louco pertence. Mas algumas me são incógnita. Nessas vezes, fecho os olhos para caso seja a terceira alternativa. Já me bastam de corpos esmigalhados no chão. Só o barulho já me dói os ouvidos. 
    - Alguém alguma vez já caiu daqui? 
    -Algumas quedas não são acidentais, veja bem. 
    -Entendo. Mas não sou uma incógnita. Não sou um suicida. 
    -Bem...
    -O quê?
    -É que liberto não lhe parece um bom rótulo e aprendi com o tempo que suicidas e encarcerados por vezes compartilham das mesmas ideias.

    Jajá se retirou, sem não lhe responder nada. Caminha para casa. Enquanto perpassa pelas ruelas de asfalto e as bibocas que lhe rodeiam, pensa no homem que encontrou na construção. Lembra dos olhos que lhe encaravam. E por alguns instantes um arrepio lhe sobe a coluna, quando nota que olhos do rapaz refletiam quase perfeitamente seus próprios olhos cansados. 








UMA PESQUISADORA DESEMPREGADA QUE ERA DO DPTO DE MANIPULAÇÃO NO MES DA REV CULTURAL
UM SUICIDA - EMPRESA DE EXTRAÇÃO DE MINÉRIO DE FERRO NO BRASIL
UM DROGA ADITIVO 
UMA MAGNATA - DESCENDENTE DO UICA LIBERAL DE MERDA

Dia 01 - cap. 01

Pela primeira vez em 4 anos, era dia de feriado. James, mais conhecido como Jajá, acordou junto do sol, tal como já era acostumado a fazer. Fez hora na cama. 

Às 8h levantou.
Tirou os lençóis suados e substituiu por límpidos cinzentos.
9h terminou de organizar o quarto.
9h05 colocou seu uniforme.
9h30, tomou café.
10h assistiu as notícias do dia. 
11h uma inquietação lhe veio
11h05 lhe suaram as mãos
11h30 lhe faltou ar.
12h fez almoço. 
13h almoçou.  
14h abriu o porta pra voltar ao expediente. 
14h05 lembrou da folga.
15h acabou um filme.
16h tomou banho 
17h questionou sua identidade.
19h reencontrou.
20h pediu comida.
21h jantou.
22h30 foi dormir.

23/11/2021

Seguridade

 A gente se forma a partir de algumas certezas.

É certo, por exemplo, que após um minuto vem o outro.

E logo em seguida um outro dia.


É certo que a gente nasce,

Cresce,

Desenvolve.


Temos certeza do dente doendo nos dias de frio

E certeza do rosto queimando nos dias de asfalto quente 


A gente sabe das alegrias que nos atingem

E dos amores que se apressam desenfreadamente


E gente sabe que certas dores virão.

É inevitável doer. 


Talvez sejam as mudanças repentinas

Ou talvez a solidão que pega despreparada no dia de hoje.


Mas nessa noite esvazio-me das certezas.

O buraco que se forma é imenso.


Se a seguridade se perde, o quanto sobra de mim?

Um coração bate?

Unhas que crescem?


As certezas se vão pois nunca fizeram nada por mim.


Esvazio-me da certeza de um novo dia

Na esperança de que caso ele nasça

Me regojize como se fosse a primeira vez.


19/09/2021


8/11/2021

 Minha alma deixou meu corpo por completo aos exatos 15 anos e 4 meses de idade. A primeira vez que transei com alguém.  Era madrugada e dormiámos no chão. Lembro que foi inesperado. Enquanto o beijava, pensava na minha calcinha feia e na calça jeans que apertava na altura da canela. Perdi minha alma naquele dia. 

      Suas mãos ansiosas percorreram minhas roupas à procura do meu corpo. E me pergunto se era meu corpo que se queria de fato. Se aquelas mãos não procuravam outra coisa, mas me acharam primeiro.  Se aquelas mãos não estavam à procura de um sorvete gelado, um afeto qualquer, um corpo de outro alguém. Me pergunto se as mãos ansiosas não queriam provar um ponto a si mesmas, de que eram capazes de encontrar moradia, e desejando uma moradia silenciosa para ouvir os próprios pensamentos. 

       Gostaria de dizer que tive apreensão, medo ou hesitação. Mas não tive. Gostaria de dizer que pensei, ponderei, escolhi. Mas também não fiz nada disso. Tirei minhas roupas como um fim de dia qualquer. Como se já tivesse feito isso milhares de vezes. E as mãos ansiosas que tanto percorriam, imploravam, pediam para serem donas de mim, me encontraram desarmada e completamente insossa. Odiei cada segundo.

Foi ali que entendi que certas marcas a gente carrega pra sempre. Certos traumas nos pegam entre um espirro e outro, enquanto analisamos a arquitetura da cidade. Às vezes eles nos tomam em meio a um novo amor, completamente inocente e alheio à toda carga em nossos ombros. E lábios. E pescoço. E coxas. 

     Minha alma se foi, e junto dela a indecisão. Demorou anos, mas finalmente faço o ponto final. Há certos toques que não permito mais. Certos olhares. Proibir me tirou o explorar. Mas permaneço viva, vívida e consciente. Uma mulher como outra qualquer.

8/11/2021



4/11/2021

      Ainda me dá ansiedade. Ver rostos trafegando sinais e os sinais verde amarelo vermelho dos tráfegos de carro. As cabeças fervendo sob o sol de rachar no meio dia. O bigode suado pelo pano que recobre as bocas.

     Carrego essa angústia, uma ausência de certo e de errado que me faz flutuar entre pensamentos e sentimentos aos quais não sei a qual ceder. Não posso me apoiar na legislação. Não posso me apoiar no núcleo familiar. São doenças que se espalham e contaminam as cabeças dos que circundam. A Doença ainda está aí. A vacina já está no meu braço. Por duas vezes, devidamente imunizada. 

     Mas por vezes sinto que carrego em minhas mãos todas essas vidas. Todas as incertezas das informações inconfirmadas, e das repercussões tenebrosas que poderiam surgir. Ainda são 7 mortes por dia no distrito federal. Sete famílias por dia, enlutadas. E eu, que lutei por tanto para me controlar, sacrifiquei todo o progresso da minha saúde mental em troca da saúde coletiva, ainda choro o choro delas. O choro dessas pessoas que andam de cabeça quente pelos sinais.  

     A ansiedade que me toma, vem do peso do coletivo. De entender que minhas mãos ainda se confundem com as mãos delas. E que minha vida pode facilmente se cruzar com a sua. Mas há tantas almas longe das minhas. Tantos corpos que queria abraçar. Tantas dores que agora carrego em meu peito. Sou humana, afinal. Necessito do afeto.Tudo isso. Tudo isso me dá ansiedade.



Sobre Adiar

 Adiei tanta coisa

Para minha eu do futuro,

Que quando elas vieram

Deixei de ser eu mesma


11/09/2021


22/08/2021

 Ideias que surfam bravamente o marasmo da mente sonolenta. As demandas, as vergonhas, a calmaria que precede o sono. O mundo silencia e só resta eu. Ninguém interfere a respiração pesada e ansiosa, ninguém ri das piadas sem graça, ninguém julga meus anseios. Adormeço.

    Um mundo que me habita domina a cena, invisibilizando tudo aquilo que me circunda. Novas informações são apagadas. Um mundo do antigo toma conta. Reflexos de mim. Reflexos do dia a dia.

      Por vezes, a individualidade que me embala nesses instantes me acompanha após o despertar. O dia a dia se segue e eu só tenho a mim. Os dias se repetem e as noites também. Ao longo da vida, a gente cresce no outro. E eu, nesses últimos tempos, me vejo absolutamente sozinha.


22/08/2021


31/07/2021

 Me consome por dentro essa necessidade de aprofundar. Não desejo ser rasa em nada. Quero ser a mulher mais amada por alguém, a funcionária mais aplicada em tudo, o sorriso mais largo que alguém pode abarcar. 

É um espírito investigativo. Um pouco vaidoso; talvez. Futuco cada beco até que ele se torne uma rua iluminada. Depois regojizo em silêncio o trabalho que fiz. Contemplo de longe, em minhas águas paradas.

    Lá, ao longe, um vulcão incendeia. Espalha numa fúria presente, suas cinzas a todos os ares que ousam roçá-lo. As rochas estrondosas quebrantam uma a uma, felizes de finalmente estarem libertas de seu estado sólido.  Vulcões são águas paradas que se deslocam à força. Pedaços de Terra, que jamais acharam ser descobertos, num segundo se anunciando ao mundo. Profundos e rompantes. 

Há certas erupções que nos tomam vulcões. Uma vez deslocada a fina camada que recobre o processo, o calor instantâneo toma a cena por completo.  Queima o rosto, o peito, as pernas. Nos impede de andar. A gente paralisa, interrompendo um suspiro, mais pela surpresa do que pela dor que atinge. Paramos inertes, segurando a humilde pá que se torna minúscula frente ao caos que se formou. Tudo se explode. Minha pele se escalda frente à minha responsabilidade nisso.


31/07/2021


Revestida

Sou revestida dos pés à cabeça:
Cabelo em ondas perfeitamente calculadas,
Os cílios alongados por artimanhas da moda. 

Saio à rua em performance constante
De personas que se fazem
À luz dos olhos que me veem

Sou alinhada dos pés à cabeça:
Nas exatas curvas que me ditam feminina,
Na exata forma que ensinaram a ser.

O leitor desavisado
Prevê certamente 
A anunciação bíblica.

Mas fogem aos olhos as meias coloridas
E as mãos roídas
Que me sustentam em pé.

27/06/2021

(Im) possibilidades

    Não quero que soe como se entre a minha existência e a sua, houvesse, a meu ver, uma grande sentença condicional: eu só existo SE você existir. 

    Não pense que os sons que saem da minha boca, elaborando sentenças e explodindo em voz alta, se direcionam somente aos seus ouvidos.
Minhas pernas infinitas são fora do meu alcance. Se expandem em múltiplas direções, como se lutassem para não perder uma única oportunidade. Os cabelos crescem, os músculos se retraem, as unhas se desenvolvem. Eu sou ossos e sangue. Sou carne e suor. Sem você, sou completa dos pés à cabeça.

    Mas há um certo aperto que me dói as juntas. Talvez seja a onda fria de inverno que começa a tomar os ares da cidade, percorrendo casas que obrigam janelas fechadas. Há uma taquicardia que me pega desprevenida nos últimos tempos. Não é a dor de paixão em amar algo e perdê-la aos poucos durante uma estação. Nem tampouco o vazio que nos invade quando deixamos de ter algo que anteriormente era nosso. É a dor das (im)possibilidades que foram construídas ao longo desse tempo.
    

    Certos dias, a gente divaga. A gente imagina futuros distantes que poderiam ser realidade, mas que sabemos serem dificilmente concretizados. Construímos diálogos inteiros - anos completos - nas conexões construídas por nossos neurônios, e que predizem freneticamente sonhos de longa data através de sinapses nervosas. Você nunca foi divagação. Sua imagem em meus espelhos e na minha mente sempre vieram acompanhados de um breu profundo. Seu olhos contorcidos em um longo ponto de interrogação que me trava a imaginação. Sem ideias de sim ou não.

    Quando você se desfaz diante dos meus olhos, como o gás de cozinha que apaga depois da chama, me pergunto se o cheiro de metano algum dia se esmorece, ou se permanece impregnado em minhas narinas. O cheiro do que não foi domina os espaços que habito, brigando por lugar com o cheiro do que poderia ter sido. As narinas filtram incessantemente, o cérebro se acostuma a todo tempo, procurando dormência onde há sensação. Nada adianta. Eu recito a todo instante:

Sem você,
Existo bem. 
Sem mim,
Existes também.
Mas que mal faria
Existir em nós?

    Esses versos me consomem. Como se não soubesse que o futuro de existir em nós, nada mais é do que as ilusões de criança que me sobem à cabeça. Às vezes dói pensar no longo fio da minha vida que deixará de cruzar com o seu. Às vezes não. Somos o instante fugaz que desaparece num truque de mágica. Mas a taquicardia continua. Não queria que a realidade fosse outra. Só queria um não certeiro. A sensação fixa e forte de que nada de muito importante foi perdido. Queria me dessenssibilizar de você.

11/06/2021

Uma carta de outono

Meu corpo é a massa frágil que recobre a minha presença.
Eu presido.
Eu existo.

Te escrevo essa carta para lhe contar das dores que esses peitos cinzas carregam, e das pequenas frustrações diárias que navegariam em seus glóbulos vermelhos a toda velocidade. Digo-lhe respeito do mundo feio e áspero que impõe brutas alergias aos corpos que o habitam. Essa carta-poesia é um metapoema, que exibe a você minhas próprias dores de gente cinza. E a anemia que sustenta meu corpo.

 Minha pele é plástico filme: fina, transparente. Tenta não abrir brechas. Não sucumbir jamais. Vez ou outra ela rompe, em espinhas inflamadas ou em cortes distraídos, que me doem a cabeça. Vez ou outra ela sangra, como se protestasse as mágoas que lhe inflijo dia após dia. Minha pele engrossa a cada marca que lhe faço, em cicatrizes desordenadas que compõem quem sou.

Sou uma casa inabalável.

Você, de pele imaculada, não saberia a sensação. Essa carta-poema ressoa no abismo entre nossos corpos. Reverbera as burrices que nos trouxeram até aqui e as lágrimas indiscriminadas que caíram quando finalmente me vi seca por completo. 

Meu estômago me expele garganta afora,
meu pulmão expulsa o ar como se a ele não pertencesse,
meus pelos se encravam num protesto silencioso.
Vãs tentativas de me expulsarem de mim.

Sou uma casa inabitável.

Claro, não que você seja capaz se sentir, mas lhe escrevo esta carta poesia pois não quero que doa.  Quero que entenda que jamais foi sua culpa. Se nunca habitei em mim mesma como você poderia fazer? 

Você se esvai.

Desliza sutilmente pelos caminhos feitos para te receber. Os caminhos ácidos traçados por mim ao longo das eras que vivi. As hostilidades sustentadas para jamais poder ser plena por completo. 

Você se esvai.

Ações egoístas
Às vezes
São as mais altruístas. 

O amor mais curto
E mais sincero que já senti.
Amei a ti
Como a mim mesma.

Você me invade
E eu presido
Você escorre
E eu sou líquido.

Meu bem,
Quando você se foi,
Parte de mim morreu pra sempre.

Mas te lavei no banho
como se fosse
um mês qualquer.

08/06/2021



Homens de Espinho e Mulheres Despidas

 Sentada aqui olhando pro nada. O livro que você me emprestou (excelente, aliás) jaz fechado entre minha mão e a mesa que agora repouso. Comecei a leitura hoje, há exatos 23 minutos, quando senti falta de você. Cada uma das sentenças se perde pois imagino suas mãos percorrendo os mesmos lugares que a minha. Crio em minha cabeça a narrativa paralela à história, composta de cenários e expressões que são exclusivos seus. A leitura não me flui. Cada palavra que meus olhos tocam, me direcionam aos seus olhos. A cada forma do livro à qual minha mão se ajeita, imagino se suas mãos se ajeitaram da mesma forma. E provavelmente não. Suas mãos são opostas às minhas; tenho dedos longos e magrelos, como se fossem feitos à extensão dos meus braços. Seus dedos são curtos e inchados, como grandes balões de oxigênio que se incham para suprir as mil e uma atividades que você faz ao longo do dia. São mãos complementares. Seguram o livro de forma diferente. 

    Com você, a paixão é algo novo. Um sorriso bobo me percorre as juntas e eu sei que você é a causa principal. Um frio no estômago me atinge, como se as palavras que você diz, jamais tivessem sido dirigidas a mim anteriormente por outras paixões quaisquer. Me sobem tremores. Meu corpo fica inquieto. Um fantasma longíquo dos medos bobos de menina me assolam o peito e me pergunto em silêncio se quero, de fato, estar vulnerável novamente.

    Veja bem, homens são ensinados a machucar. Isso pode ser percebido quando eles levantam seus punhos e cumprimentam uns aos outros com pequenos socos. Quando se fazem megafone para gritar mais alto que uma multidão. Você percebe nos abraços inadequados. Nos ranger das colunas quando se inclinam para envolver alguém. Os ombros tensionam, os braços enrijecem. Há um medo implícito, como se estivessem à espera de uma punição por tal ato. As lágrimas secas, os suspiros inaudíveis, os sentimentos não ditos. Cada vez que se fecham, cada vez que se guardam, criam uma aresta pontuda e áspera em suas camadas. Muitas vezes, homens machucam por simplesmente serem feitos de espinhos.   

     E aqui não digo dos homens que querem machucar; que se postam nos semáforos orgulhosos de suas marcas, aceitando que toda a sua existência será resumida a isso. Aqueles que usam seus espinhos como armas empunhadas, como se dissessem "ei, se tenho feridas, por que você não tem também?". Eu digo dos homens ordinários e aos montes, completamente alheios à própria existência. Homens que jogam seus casacos por sobre os ombros e omitem as cicatrizes até que alguém chegue perto o suficiente para vê-las. Todos eles são ungidos em ácido, uma bomba relógio pronta para explodir a qualquer instante.

    Enquanto isso, nós, mulheres, somos ensinadas despir. Às vezes, nos despimos em quartos seguros, em meio a uma louca confusão de roupas e falatório incessante, cercadas por tantas outras que nos apóiam e fazem rir durante horas a fio. Às vezes, nos despimos após algumas taças de vinho, acalentadas por braços seguros que permitem nossas unhas cravadas contra eles. Por vezes, nos despimos em alma. Ditam-nos a verborragia inerente aos ingênuos. 

    Mulheres entendem que a força vem do outro. Da rede humana que se encontra atrás de nós, para caso desmaiemos por conta do calor. Sua pele se descasca, nas mãos ressecadas de tanto fazer cafunés e lavar a louça. Adentramos as margens da vida adulta de peito aberto e prontas para amar. O amor é bom, eles dizem. O amor é força, repetem para nós. E nós queremos o amor. Nós queremos a força.

    Quando esses dois mundos se encontram, os homens de espinho e as mulheres despidas, nem sempre (quase nunca) há um resultado em que ambos saem imaculados. Aprendemos isso na adolescência. Quantas mulheres não relatam que os primeiros incômodos românticos aconteceram nessa fase? Quantas não criaram ali, entre os 14 e 18 anos, os traumas e cicatrizes que carregarão o resto da vida? Em contrapartida, homens relatam causarem feridas. Dizem aos montes eram jovens e sem rumo. Se sentem legitimamente mal por terem causado tanto mal. Carregam a culpa de terem rasgado os corações que tão lindamente se postaram frente a eles. Homens de espinho e mulheres despidas, causam rasgos nas peles macias e perfumadas que meninas são ensinadas a cultivar. 

      Eu, fui ensinada a me despir. Você, foi ensinado a machucar. Não há escapatória. É claro que a história não é única. Alguns aparam seus espinhos, outras constroem armaduras ao redor da pele exposta. Com o tempo, as pessoas se ajustam. Os discursos se dissimulam e as feridas não são tão evidentes. Às vezes, longíquas o suficiente para se tornarem histórias de 5 minutos, comentadas rapidamente em uma mesa de bar. Mas as últimas feridas causadas em minha pele foram tão fundas que carrego vincos enormes por todo meu ser. Não há garantias que você não fará o mesmo. Nossas mãos em complemento não deixam expostos os calos que tive depois de lavar ele da minha alma. Os olhares direcionados a você não evidenciam as olheiras que carreguei após as noites de insônia pensando em como raios me resolveria. A narrativa paralela é linda, mas é abstrata e imaterial, diferentemente do livro que você me emprestou para ler esse mês.

    O fato de eu gostar tanto dos seus olhos me assusta pois não sei como farei se precisar fugir num pulo. Se seus espinhos ferirem minha pele, novas cicatrizes se abrirão, fazendo companhia à constelação que já carrego em meus ombros. 

26/05/2021

Loja de departamento

Pontuado, havia pontes.
Os manequins distantes
Encontravam linhas firmes
De azulejo e granito.

Pontuado, havia pontas
de coração a coração
Que descamavam o plástico 
E exibiam o ferro.

Linhas tortuosas que desciam as escadas
Luzes flutuantes que subiam elavadores
Risadas de leve que segredavam piada.

Antes, havia pontes.
De cada víscera exposta
Aprendi a amá-las.
E aceitar os vincos que sulcavam o plástico.

Quando os azulejos se foram
As luzes flutuantes se apagaram
E o ferro exposto se tornou espinho,
Não soube voltar atrás.

E cá estava eu, completamente derretida.
Cá estava eu, completamente desmembrada.
De departamento em departamento,
Isolei-me.

23/05/2021

Sobre pé atrás- pt 2

Hoje acordei pensando em você.

Essa única frase
É minha poesia inteira.

A cautela se foi
Quando você chegou.

18/05/2021

Nova muda

Você comprou uma nova muda
Que jurou que ia molhar.
A coitada aqui resseca
E rejeita o novo lar. 

Suas mãos jamais alcançam
O feio e fino
regador.

Elas percorrem suas gavetas,
Suas cordas,
Meu suor.

Sua mão
plantada
na minha.

Você respira baixinho
No mundo pacato
Da nossa conchinha.

A madrugada nos transpassa
Numa calma sem graça
Que nos deixa o silêncio
E nos faz um carinho.

Sua planta da casa:
A cama de solteiro
Num aperto certeiro
Aos moldes que necessito.

A gente fala bobagens.
Sem motivo, hesito
Minhas raízes são profundas
E nem tudo é prescrito.

A gente descobre defeitos
A gente compensa passado
A gente celebra carícias
A gente se encaixa errado.

Minha história
Plantada 
Na sua.

Ainda há um mundo não dito
Entre as mãos
Que agora se tocam.
Não nego.

Mas quando você, esquecido,
Deixa a muda morrer,
Eu digo, "querido,
Deixa comigo."

Eu rego.

06/05/2021



Permissão

Acho você sensível.
Penso, talvez, que seja o homem mais delicado
que minhas mãos já tocaram.

Gosto de te ver feliz.
Aprecio seus sorrisos
E o jeito satisfeito que me olha
Quando faço minhas piadas bobas.

Botei meu pé na água.
Arrisquei alguns segredos
Para ver como eles reverberavam em você.

De todos os desejos que saem à cabeça,
De todas os calores que me percorrem as mãos geladas,
Queria me apaixonar por você.

Queria me tornar obsessiva
Louca,
De abraços e coração aberto.

Mas sua delicadeza também complica seus medos,
Seu jeito satisfeito se molda em expectativas à mim,
E minhas piadas bobas preenchem silêncios vazios.

Meus segredos expostos
Reverberam nas paredes que te cercam e te dominam;
Na etiqueta forçada de sorrisos indiscretos.

Queria me apaixonar por você,
Mas foi-se o tempo adolescente
Em que me permitia amar e não receber nada em troca.
Amar e não ser amada.

Queria tanto,
De tantas formas,
Me apaixonar por você.

Mas você não deixa.
Não sei se algum dia
Será capaz de deixar.

12/04/2021 - 21:24

A criança mais incrível do universo

Minha mãe fez de mim 
A criança mais incrível do universo.
Eu era mais feia que as outras crianças,
Minhas roupas eram desajustadas em meu corpo,
E só possuía duas amigas. 

Mas eu corria livre pela grama
Não dava a mínima se minha bunda era desproporcional
E amava as amigas que tinha.

Eu era feliz
e centrada no meu umbigo.

Demorei anos,
Décadas até,
Para perceber que o mundo apontava dedos
E suspirava sussurros
Que tinham o poder de arruinar.

O primeiro assédio,
A primeira vez que alguém te fode por estar inseguro, 
O primeiro coração partido.

Descobri tarde demais que o mundo tem garras.
E às vezes garras que nem queriam te alcançar,
Te alcançam.

Dilacerei-me tanto,
Fui do meu centro ao centro do mundo,
Sem saber o quanto de mim era eu
E quanto era fruto dos ventos que me acertavam.

Fui a criança
Mais incrível do universo
E sou a adulta
Mais mediana que conheço.

O mundo, quando se abriu para além de mim,
Doeu pra caralho. 
Deus. 
Isso dói até hoje. 

03/04/2021


Doença

Já há algumas semanas
Meses, talvez,
Que acordar e existir
É um esforço diário.

Meus olhos repletos de areia
Meus ombros num peso profundo
Um desânimo que descolore o dia a dia.

Não quero me cuidar,
Não quero insistir,
Não quero esforçar para estar bem.

Estive com o vírus alguns meses atrás.
Dizem que indisposição é uma das sequelas.
Mas as instabilidades que me cercam
Também deixam marcas profundas.

Não consigo dizer
Se o desânimo é sintoma
Ou a doença por si própria.

01/04/2021