Minha alma deixou meu corpo por completo aos exatos 15 anos e 4 meses de idade. A primeira vez que transei com alguém. Era madrugada e dormiámos no chão. Lembro que foi inesperado. Enquanto o beijava, pensava na minha calcinha feia e na calça jeans que apertava na altura da canela. Perdi minha alma naquele dia.
Suas mãos ansiosas percorreram minhas roupas à procura do meu corpo. E me pergunto se era meu corpo que se queria de fato. Se aquelas mãos não procuravam outra coisa, mas me acharam primeiro. Se aquelas mãos não estavam à procura de um sorvete gelado, um afeto qualquer, um corpo de outro alguém. Me pergunto se as mãos ansiosas não queriam provar um ponto a si mesmas, de que eram capazes de encontrar moradia, e desejando uma moradia silenciosa para ouvir os próprios pensamentos.
Gostaria de dizer que tive apreensão, medo ou hesitação. Mas não tive. Gostaria de dizer que pensei, ponderei, escolhi. Mas também não fiz nada disso. Tirei minhas roupas como um fim de dia qualquer. Como se já tivesse feito isso milhares de vezes. E as mãos ansiosas que tanto percorriam, imploravam, pediam para serem donas de mim, me encontraram desarmada e completamente insossa. Odiei cada segundo.
Foi ali que entendi que certas marcas a gente carrega pra sempre. Certos traumas nos pegam entre um espirro e outro, enquanto analisamos a arquitetura da cidade. Às vezes eles nos tomam em meio a um novo amor, completamente inocente e alheio à toda carga em nossos ombros. E lábios. E pescoço. E coxas.
Minha alma se foi, e junto dela a indecisão. Demorou anos, mas finalmente faço o ponto final. Há certos toques que não permito mais. Certos olhares. Proibir me tirou o explorar. Mas permaneço viva, vívida e consciente. Uma mulher como outra qualquer.
8/11/2021
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