Sobre potes

Na cozinha compartilhada

Pote arredondado.

Coloquei no microondas

E esperei.


Vidro estilhaçado 

Caco explodido

Som agudo de vidro.


Vidro temperado

Feito a calor e gelo,

Montou-se em algumas horas,

Explodiu em segundos,

E agora vai à lixeira.


Nas fases da vida,

Vidro arrependido,

É, ironicamente,

O que mais demora a decompor.


01/08/2020

17/02/2020

 Não queria que os silêncios fossem tão intensos para mim. A ausência de carros na rua; a capacidade de ouvir ecoar perfeitamente uma folha planando e atingindo o solo. Queria ouvir conversas atribuladas, sentir o cheiro de carbono em meus cabelos e elevar minhas mãos e voz em meio a uma manifestação. Queria sentir meu corpo suado percorrendo o centro da cidade para sentir o gosto de um sorvete em um dia de sol. Em casa, em meu silêncio torturante, não posso deixar de pensar a ironia disso tudo. Logo nós, a geração instantânea. Logo nós, filhos dos milissegundos, estamos frente a frente com o ritmo letárgico que esse período impõe. É claro que para alguns, a ausência de atividade de metade da sociedade implica o dobro de ritmo para eles. Mas ainda me surpreende as cidades-fantasmas que se tornaram os grandes centros urbanos. 
As paredes azuis que me circundam nesse exato instante, pintadas há pouco pelas minhas próprias mãos, possuem irritantes manchas e falhas, criadas pelo meu olhar vadiante que percorre esse cômodo. De novo. De novo. E de novo. Esse azul piscina, que de repente toma a cena, se assemelha cada vez mais ao movimento das ondas. Meu olhar vai e vem. O azul vem e vai. E de tanto ir e vir no meu olhar, me sinto submersa no oceano profundo, tal qual as lembranças das praias que morei em Santos.
O azul me toma e me molha. Um frio penetrante arrepia minha pele. Meus pulmões são pequenos, dentro de um enorme rolo compressor que os machuca lentamente. É um afogamento em plena seca de Brasília. A água me abraça e me contorna. O movimento me puxa e me empurra. Meus movimentos são silêncio. Meu respirar desesperado é silêncio. A água abafa cada som meu. Não há carros, protestos, suor ou carbono. Há somente água.
Esse silêncio que comprime tem nome, endereço e forma. A pandemia que nos embala não nos assusta somente pela certeza das infecções, crise econômica e mortes. Nos deixa também de peito pesado todas as incertezas que ela carrega. Perguntamo-nos, abismados, como um ser invisível a olhos nus é capaz de fazer estragos tão imensos em nossas vidas. Em toda a história, nunca nenhum de nós presenciou um barulho tão silencioso.

17/07/2020

Frankenstein

Minhas mãos eram cálice.
De superfície plana
Pra sustentar você.

Bebendo delas,
Gotas vieram, pessoas foram,
Te acusando de errar
Por sua inércia de gravidade

Mas minhas mãos eram concha
E armadura dourada
Que pintei em cada milímetro de pele seu.

Minhas mãos eram base
Os pilares e sustento 
Para que você jamais tivesse de cair.

Minhas mãos eram água
Da água benta mais santa
Que benzia consciência
depois de tantos pecados.

E quando bem protegido
E aquecido e bem lavado
Precisei que me amasse,
E abraçasse as mãos cálidas que criei pra você.

Somente para você.

Mas você nunca me amou.
E minhas mãos calizadas,
Criadas a seu molde,
Não me serviram de nada.

Quando eu quis ir embora
Em partes porque me machuquei
Em partes pra te machucar
Joguei com seus erros da forma que tantos outros fizeram.

E que dor que senti
Num orgulho, também,
Quando percebi
Que a armadura que eu mesma ajudara a criar

Ainda era reluzia em ouro,
Capaz de ofuscar a quem ousasse chegar perto.

E que meu ir
Não causou o menor buraco,
Nem o menor suspiro,
Em seu dourado reluzente.

A criatura,
Afinal,
sempre vence o criador.

06/07/2020