Dores do Parto, Adélia


Minha mãe canta e cozinha
carnes,
coxas,
batatinhas,
cheiro de almoço.


Mão levanta panela,
Sobe forte a fumaça,
E reparo através da claridade
Pequenos cortes que abraçam: 

Carnes,
Coxas,

Batatas,
Pescoço.

Num súbito truque da luz
Os ingredientes na panela 
Confundem-se à sua pele
E já não sei
Qual corte é qual.

Os cheiros confluem,
Ela conversa animada,
E me pergunto calada
Se as marcas ali
São de faca ou da vida.

Marcas que carrega
Para que eu jamais tenha de carregá-las também.

30/05/2020

Setecentosevinteseis

Sou filha de um estado
De muita fé
Muito colo
E muita gente.

Tem pamonha,
Roça,
E paiol.

Pincelei nas paredes da mente 
A cachaça, as varizes e os montes.
Não quis deixar pra trás
Mesmo quando todo mundo me disse
Para deixar pra trás.

Pão de queijo
Prédios
Doce de leite

Minhas roupas já não são as mesmas
Minhas expressões já não são as mesmas
Minha fé já não é a mesma.

Sou regada de cores
Que imprimem novas formas
Em quem sou.
Mas pinceladas não saem por qualquer abobrinha.

Novos sapatos
Postura arrumada
E riso fácil.
Às vezes, quando sinto falta,
Minha fala me entrega
E se canta sozinha.

São 726km
Que me separam de lá.
Setecentosevinteseis.

Agora, presa em casa,
Rezo ao Universo
Para que minhas raízes sejam mais profundas do que pensei
E que possam percorrer todos os km,
Me ligar à minha cidade e à todas as pessoas que deixei,

Rezo para que minhas raízes se expandam
Para me lembrar de onde venho
E para proteger cada filho como eu.

Pois hoje,
Minha fala se canta a cada sílaba de prosa.
E cada canto que ressoa
É um canto de saudade.

26/05/2020

Centro da Comunidade Mumbuca ao Norte de MG, 2018

Centro de Belo Horizonte, 2019


Dia a dia

      Às vezes a circunferência do planeta Terra não nos desce a garganta. Ele entala na altura do esôfago, tomando o ar e impedindo a comida. Mas a gente se blinda. Com o tempo, se torna mais fácil ignorar a bolota que nos prende a respiração. A gente se habitua a respirar com dificuldade e a inalar a fumaça que toma conta dos centros da cidade. A gente se habitua a acordar cedo num susto, pular o café da manhã e dar uma paradinha rápida em uma banca de rua só por um cafézinho. A gente se habitua aos ônibus lotados, ao tráfego de pessoas, aos corpos que andam na rodoviária que, um dia, se tornarão indigentes. A gente se habitua às estatísticas nos jornais, que anunciam tristezas e que cobrem os corpos dos que têm o próprio mundo como casa.
      A gente se habitua a não ver o céu, a não respirar fundo, a deixar nossas inconformidades para o fim de semana, porque se é conhecido que quem se inconforma em dia de semana eventualmente perde a cabeça. A gente se habitua às violências diárias, às palavras que machucam. A gente se habitua aos animais extintos, às matas queimadas, às instabilidades políticas e a nunca saber o que vem em seguida.
      A gente se habitua à sensação no fundo do estômago de que alguma coisa está errada, mas sem saber ao certo o que é, a gente também se habitua a sufocá-la. A gente se habitua aos pares de olhos ansiosos, aos pensamentos circulares e às inseguranças. A gente se habitua à exaustão e às notícias de mais um caso depressivo. A gente se habitua à sensação de não se ter liberdade e começa a entender que certos controles da sua vida não são exatamente seus. A gente se habitua a amar e a sentir dores que vão além de nós. A gente se habitua a ver as lágrimas, nos sentir impotentes e torcer ao máximo que seus amores aprendam rapidamente a se habituar também; A gente se habitua a apressar o sexo, a apressar as conversas, a beijar rapidamente e a rir rapidamente. Nada mais dura a tarde toda. 

      De repente, a gente também se habitua a remédios para poder respirar, remédios para o coração bater, remédios para o útero não contrair, remédios para poder viver. E as cervejas dos dias de sábado, de repente, não são simplesmente lazer, elas se tornam... escape. Habituamo-nos a um bilhão de coisas às quais sabemos que não deveríamos nos habituar. E aos poucos, nos moldamos tanto em torno desses hábitos que nos ferem, que nos tornamos mais ferida que pessoa. Nossas palavras são secas como as manhãs em Brasília e nossos olhos já não enxergam. Murchamos cada uma das utopias juvenis e nossas mãos já não sentem. Carregamos no peito a resiliência, enquanto o mundo nos entala a garganta. Habituamo-nos ao nosso mundo adoecido.
      E em certos dias, nos bate o cansaço. Mas a gente continua. A gente continua. Se habitua de novo, de novo e de novo. A gente se habitua justamente porque acreditamos que é o único jeito de continuar. E eu, habituada que sou, já não sei se consigo enxergar a vida de outro jeito.

Atribulações

Atribular ao próprio corpo é um dos males da ansiedade. 
E não digo sobre
Coração palpitante
Ou mãos suadas.

Você se põe em estado limite
Opera na linha máxima
Atola cada instante do seu dia
Para não poder respirar fundo.

Pois você sabe que ao respirar
Ao respirar de verdade
Seu pulmão vai falhar 
Como se houvessem pequenos furos no esôfago
E o ar se esvaziasse completo por ali.

12/05/2020

Sobre Argumentar

Eles discutiam
Políticas, paisagens e pedâncias
Das quais não me apetecia:
Éramos fatos independentes.

Mas, sem razão, me fiz cirurgiã,
Abri meu umbigo
E, sem zelo, fiz um buraco
Exatamente no meio.

Deixei que o fato me adentrasse
E que fundisse às paredes do estômago
Para que argumentar fizesse sentido
E para que eu tivesse, novamente,
Alguma identidade.


11/05/2020

Sushi com feijão

Aos imigrantes
Retirantes
Viajantes
Latinos
Trabalhadores sem casa.

Aos que deixam e abandonam 
a própria terra
E rosto
Para criar um inteiramente novo.

Aos que fragmentam 
seus corpos
De coração num canto
E cérebro no outro

Aos que tentam apagar inutilmente
seus nomes e sobrenomes
Pra tentar
Apagar a própria história:

Não esquecer de onde vem
É, também, saber para onde se vai.
E no fundo eu celebro
Não ser capaz de esconder minhas raízes.

Esse sincretismo
É um pouco de mim
Num lugar que agora também é meu.

E esse sincretismo é meu alívio
De saber que ainda reconheço quem sou.
Esse sincretismo
É histórico e lindo.

06/05/2020

Olhos da Cara

Os olhos da cara
Me costuram uma fortuna.
Eram pequenos e puxados, 
Tinham um forte tom de amêndoa e
eles sobre mim me prenderam .

E custei a entender
Que olhos não cobram amor
Nem relação.
Olhos são fogo de palha.

Os olhos daquela cara,
Preciosíssima menina,
Me custaram o mundo inteiro.
Porque não tinha mais nada o que dar
Além de meu eu e minha alma,
Quando ela me disse que olhos
São somente uma metáfora qualquer.

01/05/2020