Cólicas

Todo 28 eu tenho raiva
E renego a mim mesma
Na certeza absoluta
Que meu corpo me rejeita.


Todo 28 eu sofro
Numa simulação barata
De uma maternidade
Que não vejo além dessa mera [simulação


Auto-agressão
Com remédios e água fervente
Pra tentar me expelir e atordoar.


Me cuspo e me exilo
Me esqueço e me odeio
No contrair e descontrair.


E todo 28 eu desrespeito
As raízes que ele é
E a beleza que carrego 
Nessa casa que é meu útero.


Cada ciclo que passa
Meu corpo diz
Que tudo bem renovar
Que a gente cresce, constrói, desaba e renasce.


Meu útero é uma árvore 
Forte e gentil 
Que segue as estações
Pra poder me sustentar.


Meu sangue que desce - 
Seus átomos e elementos -
Deixam meu corpo
Do mesmo modo que deixaram centenas antes.


Cada veia que se rompe,
Cada músculo que mexe,
É a perfeita evolução
E um atestado da vida.


Vida somente possível
Por causa da casa
Que carrego dentro de mim.


Meu útero é sagrado.
Meu útero é ancestral.
Dando vida a outro ou dando vida a mim mesma,
É através dele que sou parte dessa Terra.


Quando sinto minhas cólicas
A dor apaga tudo isso.
Às vezes não entendo
Que esse é o jeito que meu corpo tem
De me relembrar que estou viva,
que sou parte de um todo,
E que às vezes a dor 
é uma dor que vale a pena.


29/04/2020

O Canto da Cigarra

      Sempre ouço humanos dizerem que refazer minha casca é um processo rápido. Que mal que há? É biológico; natural. Mas apesar de tão inteligentes para os números, seres humanos ainda não entendem que se desmoronar e nascer de novo da terra exige ressignificar todas as cores, imagens, lembranças e hábitos. É preciso pesar na balança cada uma das pequenas cenas que dão vida a quem somos, até que as novas sensações preencham o espaço que a antiga você ocupava. Surge uma nova casca maior, mais dura e capaz.
      Do alto do céu, às vezes, também me esqueço. Mudanças barulhentas ocorrem, explodindo matéria e permitindo que milhares de partículas se ergam do chão e percorram os ares, invadindo o pulmão dos asmáticos. Me esqueço sempre de pensar nas tosses. Me junto às centenas de corpos que admiram novas janelas resplandecentes e novas cores que se verticalizam, sem nunca nem mesmo considerar que algo teve que ruir para que aquilo se erguesse. A gente ignora os processos.
      Antes, nunca tive sossego. Mas agora, tento entender que tranquilidade é percorrer os céus, sabendo que ainda sou orgânica e capaz de respirar, mesmo quando me sinto em um breu e que todo o ar do meu corpo foi roubado. Tantas vezes me senti sem ar! Quando os sonhos que construí e que eram fogo queimaram até o fim e se tornaram fumaça antes mesmo de eu me acostumar com eles. Quando me perguntaram de súbito e tive de decidir, num susto, quem eu era. Dores que senti e que me disseram repetidas vezes que iriam passar. E apesar de não querer escutar aquilo, foi a construção de utopia no horizonte, precisa na medida certa para me manter em movimento e tentar alcançá-la. E agora, depois de tanto, sou eu quem afago as mãos dizendo que seu ar ainda vai adentrar seu corpo, igualzinho ao meu.
      Se transformar é doloroso. E não é o doloroso que dá pra sufocar com remédios ou álcool; que se assemelha a uma coceirinha em um canto do corpo. Mas é a frustração que nos impede o vôo. É aquela que nos causa um pouso forçado e nos faz duvidar da solidez de cada uma de nossas projeções futuras. Nos faz avaliar e reavaliar cada um dos conceitos e ambições que temos, fazendo refletir se eles são suficientemente bons para estarem presentes nesse novo eu. Nos faz pensar considerar caminhos que nunca antes foram considerados. É uma angústia silenciosa; assustadoramente calma. Sim, transformar dói. Mas depois, se sentir você mesma, pela primeira vez em muito tempo, é alívio.
      A cada nova casca que construo dentro do meu corpo, enxergo melhor cada um dos seres vivos. Meus olhos se transformam e aprendo a prestar atenção nos detalhes; a compreender melhor. Cada novo eu sabe confiar ainda mais no canto meu e das minhas parceiras, entendendo que cada canto de disfonia é, também, um canto de poesia. E o quanto cada um de nós - esse seres vivos repletos de energias e tristezas - somos seres sagrados, simplesmente por sermos um mísero pixel desse misterioso conjunto que é o Universo.
Misterioso também por renegar quaisquer muros altos ao nosso redor, sem importar que nossa música que ressoa aos quatro Ventos e denuncia tudo aquilo que nos entristece jamais é compreendida perfeitamente por alguém. E por saber que muros baixos não servem somente para que possamos circular livremente. Eles também existem para permitir que outras coisas se aproximem. Que deixe o sol adentrar meu corpo, então.
      Hoje, mais outra vez renascida, sei que nem tudo ficou para trás. Certas bases permanecem para sempre. Mas ainda sei como respirar, mesmo quando sinto que já perdi o ar. E tantas vezes antes me senti sem ar.

26/04/2020

Patológica

Não fui asmática,

Rinítica,
Sinusítica,
Alérgica a algo.
Em pleno século das inflamações,
Nasci quase homeopática
E de pulmões límpidos.

Não conecto em Twitter,
Instagram,
Facebook,
Tinder ou algo disso.
Meu celular é velho e problemático,
Não sei ao menos enquadrar uma foto

Não transo contatinhos,
Pau-amigo,
Encontro de site de relação,
Casos de balada.
Ainda aposto em relações sólidas
Capazes de me sustentar ou tirar o chão.

Veja bem, entenda, 
Mesmo com tantas possibilidades de ser
Dentre tantas alternativas de vida, 
Às vezes ainda me sinto quadrada
Em um mundo que é redondo.
Minhas quinas não encaixam,
Não se aquietam, simplesmente.

Às vezes me sinto rainha incompreendia,
Às vezes me sinto louca desajustada.
Mas então me lembro dela,
Minha fiel escudeira.

Ela, que jamais me deixa sozinha,
Minha marca de nascença,
A única coisa que me faz sentir
Filha do meu tempo:
A ansiedade.

E todos os instantes deturpados 
Que vêm junto dela

21/04/2020

Eu, lua cheia

De todas as luas que avistei no céu, 
Jamais pensei que a cheia seria a mais silenciosa. 
Jamais pensei que seu brilho daria a tudo um tom diferente 
Uma luz diferente 
Um contexto diferente. 


Nunca pensei que o fato de não ter brilho próprio 
Seria tão facilmente esquecido 
Após horas e horas de contemplação 


Estabilidade, 
Confiança, 
Profundidade. 


A lua cheia permanece cheia 
Permanece intensa 
E permanece ela mesma. 


Rezo esse mantra todo dia. 


20/04/2020

Infecção Generalizada

Sentar no sofá
E abrir a cortina
Pra observar a manhã ensolarada
Que desaba lá fora.

De súbito, 
Me dá falta de ar.
Respiro fundo, faço yoga
Me alongo, cabeça no lugar.

Mas nada expande meus pulmões
Do modo 
Que o ar puro
Fazia antigamente.

Abrir a cortina não é suficiente.

Manter a janela fechada -
Ser obrigada a isso -
Me dá saudade.

Com vírus ou sem vírus
Meu corpo já não é o mesmo,
Minhas juntas doem.
Sou privada de liberdade.

Mas me lembra todo dia
Da importância que é
Cuidar da minha casa,
Do meu templo,
Do meu corpo.

Pois agora
Todos os três se confundem;
Se tornaram o mesmo.

Minha casa é meu templo,
O meu templo é meu corpo
E meu corpo é minha casa.

E todos nós precisamos
nos manter equilibrados.
Combater lentamente
Essa infecção generalizada.

12/04/2020

Feminino

Ser mulher
É se agredir
Constantemente
E umas às outras
Por princípios criados por eles
E que sabemos estarem errados.

Ser mulher
É odiar coisas 
Que logo ontem
Você amava

E em certos dias
Despir essas amarras:
Renegá-las, cuspi-las
Na esperança de que amanhã
Você não as vista de novo.
.
.
Um arrepio sobe minha espinha
Quando percebo 
Que não importa o quanto eu caminhe
O quanto eu desconstrua

Que apesar de amar,
Não importa o apoio delas:
Ainda me reconheço mulher
Pelo ódio a mim mesma.

Sempre acordo na esperança
De ser o dia de ter uma força descomunal
Para me ver mulher
Em tudo aquilo que amo em mim

Estender minhas mãos
E pernas,
E pele,
E braços,

A todas elas que me envolvem e abraçam
A todas elas que me ferem e me destroem
Para que juntas descubramos um novo ser mulher.

Porque hoje, sinceramente, 
Ainda não sei quem sou.
E não sei o que fazer
Com as raízes que carrego em meu útero.

 07/04/2020

Desabrochar da flor de laranjeira


Luiz ainda estava acordado quando o sol começou a subir lá fora. Passara a noite toda acordado, se revirando na cama e sentindo o bafo de ar quente que estava estagnado em seu quarto. Os dias de verão já haviam começado e com eles, o maior pesadelo de todo brasileiro: os mosquitos.
Era sempre um suplício virar as noites abafadas. Se tirava a fina camada de lençol para se refrescar, lá vinham os malditos insetos devorar seu corpo. Se mantinha os lençóis, acordava pregado no próprio suor. O pequeno ventilador trabalhava por de cima de sua cômoda, rangendo e penando em urros de dar dó. No fim, só servia para jogar mais ar quente em cima do seu corpo. Era foda. Mas depois de tantos anos em seu quarto pequeno e abafado, Luiz havia acostumado, de certa forma. Chegava tão exausto em casa no fim do dia que dormia pesado, muitas vezes incapaz de brigar com os mosquitos ou os lençóis. Acordava de manhã, aceitando serenamente as picadas e o suor. Noites de insônia eram reservadas às atribulações da vida que atingiam sua consciência. Nessas noites, o verão se tornava o maior inimigo do seu sono.
      O menino se levantou para pegar uma água, tentar limpar a cabeça. No auge dos seus 20 anos, começava a perder as espinhas que antes recobriam seu rosto inteiro. Na escola, foi apelidado de Catapora, devido à área enorme de seu rosto que era recoberta com os cravos e manchas vermelhas. Nunca gostou muito do apelido, mas nunca reclamou, sabia que não era por mal. Mas agora, com a perda das espinhas e o crescimento da barba, se sentia um homem feito. Já era homem há um tempo, mas agora era pra valer. Ninguém mais o chamava de muleque pelas ruas da cidade. Quando chegava no trabalho, ninguém mais o chamava de Catapora. Agora ele era Luiz José.
      Refletia sobre tudo isso quando terminou de beber a água e colocou seu copo dentro da pia. Sabia que quando sua avó acordasse e visse o copo ali sem lavar, começaria a ralhar de uma maneira que sua mãe teria orgulho, mas sua mente atribulada decidiu relevar esse fato por agora. Viu que a avó deixara o pote de biscoitos aberto e que uma trilha de formigas já se aproveitava do esquecimento, descendo e subindo pelo lado de fora do pote, com dezenas de migalhas em suas antenas.
Luiz xingou baixinho. Havia semanas que esses malditos insetos estavam engolindo as estruturas de seu lar de dentro pra fora, entrando e saindo pelas paredes e marcando presença em todos os alimentos da casa. Elas eram impiedosas; não perdoavam nenhum deslize.
      As pequenas se esgueiravam, centenas delas de uma vez, contaminando tudo o que tocavam. Sua avó tinha horror porque "formigas são mais sujas que baratas", dizia ela enquanto jogava fora tudo o que as danadas tinham tocado. Eles já haviam tentado de tudo para afastá-las e nada parecia funcionar. Luiz tinha desistido e aceitado conviver com elas eternamente, tal qual os mosquitos do seu quarto, mas sua avó era incansável.
      Sua nova tentativa de eliminar de uma vez por todas aqueles insetos malditos era visível aos olhos de Luiz naquele exato instante. Enquanto se moviam ao redor e por dentro do pote de biscoitos, deixavam uma trilha de óleo para trás. Sua avó havia tentado colocar óleo com laranja e cravo nas molduras das janelas e portas para tentar conter a invasão noturna, mas aparentemente elas haviam passado por cima. Desgraçadas. Sua avó ia ficar fula da vida quando visse. Com certeza esse inseto não era de Deus.
      5:20. Pensou em voltar pra cama e tentar dormir, afinal era manhã de domingo e ele deveria descansar, mas sabia que era inútil. Em seu trabalho, era a primeira vez que se deparava com um problema que não tinha ideia da solução. Não era mais como nos tempos de escola, em que problemas sem solução poderiam ser varridos para debaixo do tapete. Voltar para a cama de nada serviria, a não ser para torturar sua mente com pensamentos vazios que mais o botavam pra baixo do que ajudavam em algo. Nesses momentos não se sentia José Luiz, se sentia novamente Catapora. Então, invés de voltar para o quarto e permitir se entregar ao seu momento próprio de autodepreciação, se pôs a observar as formigas.
      Elas estavam em suas filas escorregadias de óleo subindo pelo pote de plástico. Algumas apressadas. Ele começou a reparar que se comunicavam, encostando as delicadas antenas umas nas outras. Será que eram capazes de conversar de fato? E se eram, o que diziam? Será que conversavam sobre o tempo de hoje, como ia a contagem de alimento ou, sei lá, sobre a rainha que as esperava no formigueiro? Será que se sentiam felizes, tristes ou nostálgicas? Será que eram capazes de amar, odiar os outros ou a si mesmas? Sacudiu a cabeça. Ele estava maluco demais. As formigas começaram a tentar carregar um pedaço particularmente grande de biscoito.
      Ele notou que seus pequenos corpos, divididos em partes, eram espetaculares. Se uniam umas às outras e conseguiam carregar pesos enormes. Se lembrou que na época da escola pensou, um dia, em fazer faculdade de biologia. Será que era esse tipo de coisa que estudaria, se tivesse estudando biologia agora? Coçou seus olhos cansados. Ele estava definitivamente ficando maluco. Olhou as formigas por mais alguns minutos, e aos poucos foi tomado de uma emoção que não podia explicar. Lágrimas encheram seus olhos. As formigas eram lindas!
      Decidiu que eram o animal preferido dele a partir de agora. Eram guerreiras, inteligentes, trabalhadoras. Sentiu até uma certa inveja delas por serem tão fortes e tão decididas, submetidas a um trabalho incansável que as preenchia de sentido por toda as suas vidas. Já não entendia por que sua avó as odiava tanto. Decidiu que queria amá-las, nascer formiga em uma outra encarnação. Que merda, pensou. Queria, na verdade, ser formiga na encarnação de agora.
Observando a pequena trilha de óleo que se formava pela mesa, continuou a chorar. Pegou um fósforo na segunda gaveta abaixo da pia, acendeu e botou fogo na trilha. Chorou mais ainda. O fogo se alastrou facilmente, vovó devia ter colocado nas molduras um óleo de boa qualidade. Desesperadas, as formigas corriam para todos os lados, tentando fugir dos próprios corpos besuntados. Luiz observava, aos soluços, a cena até que o fogo queimasse a última gota óleo e apagasse. Lá fora, agora o sol já estava marcado; as pessoas andavam pelas ruas. Seus soluços diminuíram a frequência e seus olhos ficaram ainda mais pesados. Já não havia nenhuma formiga restante por sobre a mesa: ou estavam mortas ou haviam fugido.
      Quando sua avó acordasse daí meia hora e o visse dormindo com a cabeça na mesa e o rosto inchado de lágrima, suspiraria fundo. Pensaria que esse menino trabalha demais, e o acordaria de súbito, ralhando com ele pelo copo sujo deixado dentro da pia.

06/04/2020

Parte Particular

Cansei de me pegar
Defendendo o todo
Quando meu coração
Só amava partes

Porque às vezes aquele todo
Soava mais seguro
Que outros inteiros

E porque às vezes daquele todo
Só me dava conta 
Quando já estava embrenhada nele,
Quase no centro,
A ponto de apontarem para mim
E não verem minha face
E sim a face de um novo ideal.

Me desfiz de mim
Pra mostrar ao mundo
Coisas que nem mesmo acreditava.
Por que quem sou eu, afinal?

É difícil se posicionar
Quando se é uma relativista nata.

04/04/2020

Camaleões

Vi na televisão
Nesses canais de vida animal
Que camaleões transitam.
São rosas, azuis, vermelhos, verdes
Laranjas, turquesa, púrpura, preto,
Marrom, azul claro e amarelo.
11 cores no total.

Cocei minha cabeça.
Que confusão deve ser
Viver camaleão!

Não se perder entre os intensos;
Acertar sempre as cores.

Camaleões mudam a própria pele
Para sobreviver.
Como deve ser 
Saber que a mudança acertada
É a única coisa
Que te garante a vida?

04/04/2020

Veias

Recusei o meu todo tantas vezes
As partes boas
As partes ruins
Que pra morar dentro de mim
Inventei uma nova história
Longe do molde que era eu.

E berrei aos quatro cantos
Defeitos e qualidades
Que nem mesmo conhecia.

Me fiz ótima atriz.
Me fiz excelente escritora.
Mas agora os olhos são mais atentos e a história é velha;
Lúdica demais para ter algum crédito.

Meu escrito caiu em desgraça.
Sim.
Acho que matei minha veia artística.

03/04/2020