Luiz ainda estava acordado
quando o sol começou a subir lá fora. Passara a noite toda acordado, se
revirando na cama e sentindo o bafo de ar quente que estava estagnado em seu
quarto. Os dias de verão já haviam começado e com eles, o maior pesadelo de
todo brasileiro: os mosquitos.
Era sempre um suplício virar as noites abafadas. Se tirava a fina camada de
lençol para se refrescar, lá vinham os malditos insetos devorar seu corpo. Se
mantinha os lençóis, acordava pregado no próprio suor. O pequeno ventilador trabalhava por de cima de sua cômoda, rangendo e penando em urros de dar dó. No fim, só servia para jogar mais ar quente em cima do seu corpo. Era foda. Mas
depois de tantos anos em seu quarto pequeno e abafado, Luiz havia acostumado,
de certa forma. Chegava tão exausto em casa no fim do dia que dormia pesado,
muitas vezes incapaz de brigar com os mosquitos ou os lençóis. Acordava de
manhã, aceitando serenamente as picadas e o suor. Noites de insônia eram reservadas às atribulações da vida que atingiam sua consciência. Nessas noites, o verão se tornava o maior inimigo
do seu sono.
O menino se levantou para pegar uma água, tentar limpar a cabeça. No auge dos
seus 20 anos, começava a perder as espinhas que antes recobriam seu rosto
inteiro. Na escola, foi apelidado de Catapora, devido à área enorme de seu
rosto que era recoberta com os cravos e manchas vermelhas. Nunca gostou muito
do apelido, mas nunca reclamou, sabia que não era por mal. Mas agora, com a
perda das espinhas e o crescimento da barba, se sentia um homem feito. Já era
homem há um tempo, mas agora era pra valer. Ninguém mais o chamava de muleque
pelas ruas da cidade. Quando chegava no trabalho, ninguém mais o chamava de
Catapora. Agora ele era Luiz José.
Refletia sobre tudo isso quando terminou de beber a água e colocou seu copo
dentro da pia. Sabia que quando sua avó acordasse e visse o copo ali sem lavar,
começaria a ralhar de uma maneira que sua mãe teria orgulho, mas sua mente
atribulada decidiu relevar esse fato por agora. Viu que a avó deixara o pote de
biscoitos aberto e que uma trilha de formigas já se aproveitava do
esquecimento, descendo e subindo pelo lado de fora do pote, com dezenas de
migalhas em suas antenas.
Luiz xingou baixinho. Havia semanas que esses
malditos insetos estavam engolindo as estruturas de seu lar de dentro pra fora, entrando e saindo
pelas paredes e marcando presença em todos os alimentos da casa. Elas eram
impiedosas; não perdoavam nenhum deslize.
As pequenas se esgueiravam, centenas delas de uma vez, contaminando tudo o que
tocavam. Sua avó tinha horror porque "formigas são mais sujas que
baratas", dizia ela enquanto jogava fora tudo o que as danadas tinham
tocado. Eles já haviam tentado de tudo para afastá-las e nada parecia
funcionar. Luiz tinha desistido e aceitado conviver com elas eternamente, tal
qual os mosquitos do seu quarto, mas sua avó era incansável.
Sua nova tentativa de eliminar de uma vez por todas aqueles insetos malditos era visível aos olhos de Luiz naquele exato instante. Enquanto
se moviam ao redor e por dentro do pote de biscoitos, deixavam uma trilha de
óleo para trás. Sua avó havia tentado colocar óleo com laranja e cravo nas
molduras das janelas e portas para tentar conter a invasão noturna, mas
aparentemente elas haviam passado por cima. Desgraçadas. Sua avó ia ficar fula
da vida quando visse. Com certeza esse inseto não era de Deus.
5:20. Pensou em voltar pra cama e tentar dormir, afinal era manhã de domingo e
ele deveria descansar, mas sabia que era inútil. Em seu trabalho, era a
primeira vez que se deparava com um problema que não tinha ideia da solução. Não era mais como nos tempos de escola, em que problemas sem solução poderiam ser varridos para debaixo do tapete. Voltar para a cama de nada serviria, a não ser para torturar sua mente com
pensamentos vazios que mais o botavam pra baixo do que ajudavam em algo. Nesses
momentos não se sentia José Luiz, se sentia novamente Catapora. Então, invés de
voltar para o quarto e permitir se entregar ao seu momento próprio de
autodepreciação, se pôs a observar as formigas.
Elas estavam em suas filas escorregadias de óleo subindo pelo pote de plástico.
Algumas apressadas. Ele começou a reparar que se comunicavam, encostando as
delicadas antenas umas nas outras. Será que eram capazes de conversar de fato?
E se eram, o que diziam? Será que conversavam sobre o tempo de hoje, como ia a
contagem de alimento ou, sei lá, sobre a rainha que as esperava no formigueiro?
Será que se sentiam felizes, tristes ou nostálgicas? Será que eram capazes de
amar, odiar os outros ou a si mesmas? Sacudiu a cabeça. Ele estava maluco
demais. As formigas começaram a tentar carregar um pedaço particularmente
grande de biscoito.
Ele notou que seus pequenos corpos, divididos em partes, eram espetaculares. Se
uniam umas às outras e conseguiam carregar pesos enormes. Se lembrou que na
época da escola pensou, um dia, em fazer faculdade de biologia. Será que era
esse tipo de coisa que estudaria, se tivesse estudando biologia agora? Coçou
seus olhos cansados. Ele estava definitivamente ficando maluco. Olhou as
formigas por mais alguns minutos, e aos poucos foi tomado de uma emoção que não
podia explicar. Lágrimas encheram seus olhos. As formigas eram lindas!
Decidiu que eram o animal preferido dele a partir de agora. Eram guerreiras,
inteligentes, trabalhadoras. Sentiu até uma certa inveja delas por serem tão
fortes e tão decididas, submetidas a um trabalho incansável que as preenchia de
sentido por toda as suas vidas. Já não entendia por que sua avó as odiava
tanto. Decidiu que queria amá-las, nascer formiga em uma outra encarnação. Que
merda, pensou. Queria, na verdade, ser formiga na encarnação de agora.
Observando a pequena trilha de óleo que se formava pela mesa, continuou a
chorar. Pegou um fósforo na segunda gaveta abaixo da pia, acendeu e botou fogo
na trilha. Chorou mais ainda. O fogo se alastrou facilmente, vovó devia ter
colocado nas molduras um óleo de boa qualidade. Desesperadas, as formigas
corriam para todos os lados, tentando fugir dos próprios corpos besuntados.
Luiz observava, aos soluços, a cena até que o fogo queimasse a última gota óleo
e apagasse. Lá fora, agora o sol já estava marcado; as pessoas andavam pelas
ruas. Seus soluços diminuíram a frequência e seus olhos ficaram ainda mais
pesados. Já não havia nenhuma formiga restante por sobre a mesa: ou estavam
mortas ou haviam fugido.
Quando sua avó acordasse daí meia hora e o visse dormindo com a cabeça na mesa
e o rosto inchado de lágrima, suspiraria fundo. Pensaria que esse menino
trabalha demais, e o acordaria de súbito, ralhando com ele pelo copo sujo
deixado dentro da pia.
06/04/2020