Raios de Sol

 No momento em que vim ao mundo
Me disseram que eu era um raio de sol.
Com aroma de piscina nos dias quentes
E cores insanas refletidas em minha pele.

Fui criada como raio de sol.
Aprendi a iluminar os rostos que me rodeiam,
A nutrir as árvores que de mim precisam,
A trazer calor pros corações gelados.

Alçaram-me aos amarelos puro,
Sem um único rastro cinza.
Típicos das intensidades comedidas,
Que deixam expostos os grãos de poeira.

Fui criada como raio de sol
Nas rígidas regras
Que renegam raios de trovão.

Fui criada pra ser livre
Contanto que me pusesse todos os dias,
E retornasse às origens de noite.

Raios de sol não expandem,
Não machucam,
Não mudam,
Não se curam.

Raios de sol são diplomatas,
De sorrisos,
De ouvidos,
De braços abertos.

Percorrendo cômodos e ambientes,
Num vício insano de acolher e espairar o pó,
Pergunto-me se meu iluminar é parte de quem sou
Ou se me fui luz
Para que eu nunca fosse fogo.

Outubro 2020

Olheiras

 Suas olheiras eram exatamente a última companhia que esperava pra hoje. Pensei que contos de fada e textos escolares ocupariam o assento em que você agora está. Tantas vezes antes esperei com anseio por seus olhos que me contentei com suas olheiras. Mas nunca foi a mesma coisa de adentrar sua alma pela pupila e perder-me na complexa mistura de eus e vocês que queria enxergar. Suas olheiras eram grandes bolsões roxos que me travavam para o vácuo e aos poucos me deixavam sem ar. Achava que sem ar era sinônimo de empolgação. Suas olheiras sugavam meus olhares e gestos; minhas expectativas e ambições. Construí castelos imensos que suas malditas olheiras nunca foram capazes de apreciar.

Com o tempo, aprendi a diferença entre olheiras e olhares. Deixei-te para trás. Hoje, com suas olheiras me encarando mais uma vez, elas se encontram com as minhas. Você nunca soube, mas elas sempre estiveram aqui também.


14/10/2020


Modelos

 Mundos perfeitos e distintos de mim,

Mundos platônicos e distantes.

Meus livros

Meu tempo livre

Minhas fumaças cognitivas:

Flutuo como posso,

Mas nunca expando o suficiente.


13/10/2020



Súbita Paixão

 Eu vi você.

Meu coração disparou como uma arma,
As batidas palpitantes assombrando minhas veias,
Meu estômago em queda livre como uma bigorna em desenho
Minhas mãos tremulantes como piscina infantil
Minha voz engasgada como um almoço rápido,
Minha pele suada como...
Uma tampa de marmita.

Como a tampa da marmita que comi no dia anterior
Enquanto refletia sobre as escolhas que fiz nesses últimos anos
Sem a certeza de sim, nem de não, sem certeza de nada.

O nada que abraça meus dias agora
O vazio que prenche os espaços que eram cheios de propósito
A sequência fria do dia a dia
Que preenche minha rotina

A rotina que me prende dentro de casa
Enquanto reflito, sem a certeza de nada
Não...esse verso eu já escrevi
Mas o que escrever se tudo o que me preenche é justamente o vazio?

Eu vi você.
Frente a frente a mim.
Meu coração palpitava
Minhas mãos suavam frio
E por uns instantes achei estar apaixonada.
Mas você, refletida no espelho,
Sempre soube melhor.
Era, novamente, a ansiedade.

7/10/2020