Pinta Preta - 29/05/2019

Era dia de almoço.

Olhei seu pescoço
À procura
Da pinta preta conhecida:
Não encontrei.

Enquanto mastigava
Forçada
A pimenta malagueta 
Que tinha no meu prato,
Soltei de uma vez
Que sem a pinta não dava
Que eu não era feliz.

Com seu rosto triste,
minha boca ardia.
Implorava, pedia:
Desejava algo além
Mais completo
Que aquela curta queimação.

29/05/2019

Raízes, histórias e solidão - 10/05/2019

   Cada bolha e cada casca tem a grossura de uma árvore.Daquela árvore do jardim - entre paredes e céu azul - que vive sozinha no quintal.

Não importa a chuva que desce.
Não importa a lágrima que escorre.
A casca permanece grossa
Protegendo a cada um do frio
Evitando a tempestade que chega.
Mas a tempestade chega mesmo assim.

Tomando conta pela raiz, desabando o mundo inteiro. A casca só protegia de fora pra dentro, jamais protegeu o chão de pisar. E a umidade tomou conta de tudo. Apodreceu o núcleo mais puro e derrubou as cabeças.



Aquelas burras cabeças
Que não pensaram
Que talvez
Só talvez
Se eles tivessem todos entrelaçado seus galhos
A tempestade seria simplesmente orvalho de madrugada.

10/05/2019

Sobre nomes - 02/05/2019


Na casa de vovó, encho o prato três vezes: uma por obrigação, outra por inércia e finalmente, por culpa. "É assim que gosto, meu filho! De saco furado! Come mais!"




Vovó, feliz, não entende

Que ainda saio com fome.
Não tem arroz ou semente
Que alimente
O que me consome.
Não sou saco furado,
sou saco vazio.
Vazio e transbordado.
Esse é o meu nome.

02/05/2019