Atordoados

Acostumaram-nos à fome
Até que nossos olhos se tornassem vazios,
Como os estômagos no semáforo.

Acostumaram-nos ao ritmo
dos aviões disputando com as aves
Lentamente
Os espaços vazios do céu

Acostumaram-nos ao cinza,
Aos prédios quilométricos e ônibus lotados
Claustrofóbicos
Pelos quais nos esprememos por entre tantos iguais a nós.

E agora querem que acostumemos
Às prateleiras dos supermercados vazias
Aos aeroportos fechados
Às caminhadas eventuais filtradas por máscaras,
À desigualdade que se escancara novamente

Não é que exista algum Deus;
Alguma força universal vingativa
Que trouxe nosso karma 
E que está punindo a todos.

É simples.
Nós não estávamos preparados pra uma pandemia.
Nossos olhos, corpos e dia a dia
Se acostumaram à cegueira imposta pela fumaça do tráfego.

Não fomos capazes de enxergar 
Que nossos sistemas falhos
Não deixariam ninguém seguro
como tantos outros falharam antes.

Atordoados,
Estamos vendo nossos erros -
Políticos, econômicos, sociais.
E a culpa desse caos
Jamais foi da doença.

20/03/2020

Subir Bahia

Paralelepípedos quadrados, retângulos  soltos.
Verticalização, sapato gasto.
Você conhece beagá?

Cheiro de fumaça e de café
Meu peito arde de saudades
Do interior que é urbano
De cada esquina da cidade

O trânsito doido sem pista
As fotos 3x4 da estação central
Do nada um grafite intenso
Lado a lado a um sinal.

Ainda lembro a solidão da cidade 
Que me aparece cada vez mais
Mas sinto falta das sombras esguias
E das bancas de jornais

Meus sapatos não gastos já não reconhecem 
Não há os mesmos filmes no Palácio
As luzes do parque incomodam
E a lagoa da Pampulha parece congelada.

Ou talvez seja eu.
Com minhas roupas novas
E os pesares que agora carrego.

Minha vida já não é esta:
Subir Bahia 
Descer Floresta.