O dia era 24 de Janeiro de 1920. As ruas estavam lotadas e superpopuladas. Não que isso fosse característica exclusiva dos dias 24 de Janeiro. As ruas estavam sempre superpopuladas no país de sijdo. A diferença que demarcava aquele dia eram as cores que explodiam em cada janela e telhado de vidro. Laranjas, amarelos, azuis e verdes pulavam às vistas dos transeuntes, nos lugares anteriormente ocupados pela longa e completa paleta de cinzas e brancos que dominavam o centro da cidade. A euforia, o suor e a cerveja eram resultado do feriado da Revolução Cultural, comemorado de 4 em 4 anos no dia 24 de Janeiro.
Mil novecentos e vinte anos atrás, um grande meteoro havia passado suficientemente perto da Terra a ponto de causar queimaduras de terceiro grau nas peles alvas de pouca melanina. Simultaneamente, 6.745 pessoas tiveram a mesma percepção acerca da realidade humana. E, de alguma forma, sabiam que não estavam sozinhas. Acharam umas às outras pelas redes sociais e começaram o União Internacional Cultural Ambientalista, ou UICA, que basicamente afirmava que a realidade material em que vivíamos não era suficiente para explicar a realidade por completo. E que a culpa dessa insuficiência era a organização social em que vivíamos. A UICA pregava o fim das divisões territoriais em federações e a re-união dos indivíduos ao ambiental, integrando cidades e florestas como se fosse um. Eles acreditavam que, uma vez que o ser humano se reintegrasse ao natural, seria capaz de perceber sua finitude e pequenez frente ao planeta em que vive e frente a imensidão do universo.
E para tal, acreditavam que determinados hábitos, parte das culturas mundiais, deveriam ser repensados e reconstruídos. Eles defendiam a divulgação científica, para garantir a todos a possibilidade de terem ciência do quanto que nenhum de nós sabe sobre o todo e ao mesmo tempo o quanto podemos aprender e melhorar se parássemos para dividir e ouvir uns aos outros. UICA defendia a vida rural e o retorno das pequenas comunidades, para um aprofundamento das relações interpessoais e uma maior inserção dos sujeitos no ciclo natural. Defendiam o desenvolvimento a longo prazo de expedições espaciais. O sonho que essas 6745 pessoas possuíam não era absolutamente nada novo. Era um simples misto de múltiplos ideais que pipocavam na sociedade da época. A diferença era simplesmente o preenchimento de ideias que há muito vinham se esvaziando. Sim, a UICA preencheu e deu vida à diversos discursos, numa certa dose de idealismo. Talvez tenha sido o idealismo que deu força ao movimento. O idealismo delineia o horizonte de qualquer discurso. É através do idealismo que as pessoas caminham. Ao almejar o ideal, apesar de nunca realmente alcançá-lo, a realidade começa a se transformar.
O fato é que ninguém sabe ao certo como ocorreu, mas se sabe que os culturais ambientalistas, espalhados pelo mundo, começaram a organizar imensas manifestações. Dissidentes entravam em conflito com forças armadas, alguns evocavam o direito da simples desobediência civil, alguns procuravam firmar negociações com Estados para proteger pelo menos alguns de seus ideais. Algumas reformas começaram a ser realizadas por parte dos estados para conter a imensa fúria dos culturais-ambientalistas que se espalhava entre a população. E o mais surpreendente era que não havia ao certo nenhuma oposição organizada. Além dos governantes estatais e das altas cúpulas governamentais, ninguém das populações se levantava contra o UICA. Havia pautas para todos. Naquela época, seria possível adentrar num ônibus e encontrar pessoas de filosofias de vida completamente diferentes que alegariam serem Cultural-Ambientalistas.
Quinze anos após a passagem do cometa, nem mesmo os 6.745 idealistas originais concordavam entre si. Alguns flertavam com o marxismo e queriam a revolução proletária como parte das pautas principais. Alguns haviam adotado o reformismo, apoiando os discursos dos governos que se comprometeram em acirrar as políticas ambientais e garantir melhor integração com o natural. Alguns argumentavam que deveriam esperar as reformas organizadas pelos Estados e depois se apropriar das estruturas estatais para tornar o movimento mais efetivo. Nenhuma de suas conferências resultavam em consenso mais. As conferências rarearam e o movimento foi aos poucos perdendo a unidade. Mas o que ninguém esperava era o surgimento de uma nova força no cenário de apoio à causa UICA. Empresas multinacionais começaram a financiar os grandes encontros na União e estimular suas pautas. A divulgação científica passou a estar presente nas políticas de empresa. As empresas adotaram políticas ecológicas que garantiam maior integração ao ambiente natural. Passaram a utilizar as cores verde e dourado - saúde e riqueza - em seus logotipos como forma de assegurar a todas e todos que seu discurso era real e procurava atender a população. As multinacionais começaram movimentos de não pagar os impostos aos Estados e aumentar o salário dos funcionários, afirmando ser decorrência direta da inadimplência fiscal. Os embates entre estados-empresas tomou proporções imensas, principalmente quando trabalhadores começaram a tomar lado nessa disputa. O movimento UICA, inclusive, se dividiu praticamente ao meio. O que antes era uma frente unida e coerente foi, pouco a pouco, desmembrando à luz da vaidade, do ódio, da corrupção e simples divergências culturais.
Sessenta e dois anos após a passagem do cometa, os Estados estavam praticamente extintos. A união das forças empresariais foi suficiente para extinguir e minar as forças de 185 dos 193 países existentes. Apenas 8 países resistiam bravamente no mundo, enquanto 4 deles já haviam feito acordos e tratados para garantir seu funcionamento. Foi assim que uma nova ordem mundial foi instaurada. A vida da população não estava mais à mercê das vontades governantes e falsos representantes do povo. Todos passaram a viver de acordo com políticas empresariais, que variavam desde empresas que adotaram sistemas democráticos dentro de si até enormes impérios pautados na hereditariedade. Alguns já estavam em grandes empreitadas de aumento exorbitante dos próprios lucros. Como os UICA um dia idealizaram, não havia mais limites e fronteiras entre países. Alguns caminhavam felizes nas ruas, com a certeza de que tudo estava finalmente tomando os rumos certos. Após o fim da organização mundial que imperou durante milênios, as empresas continuaram a batalhar entre si por controle e por maximização dos lucros. Mas havia um acordo não dito de preservar os feriados, festas de fim de ano e ocasionais fins de semana, apesar de já terem começado o plano de revolucionar a contagem dos anos e dos calendários.
Mil novecentos e vinte anos após a passagem do cometa, as semanas possuíam 14 dias de semana e um de descanso. O feriado mais aguardado por todos era o feriado da Revolução Cultural, que ocorria de 4 em 4 anos, onde as maiores empresas do mundo liberavam todos os seus funcionários por o período de 1 mês. Durante o primeiro dia, todos saíam à rua, comemorando, bebendo aos montes e celebrando por estarem vivos. O carnaval brasileiro foi exportado ao mundo inteiro, como uma forma de celebrar a vida. A bandeira da UICA tremulava por sobre os prédios, como um recordar do glorioso momento em que o ser humano havia se libertado das amarras territoriais. Um frescor de esperança atingia os rostos. Mas entre becos e esquinas, ainda rezava a lenda de quando o último idealizador do movimento morreu, um diabético de 92 anos, havia sido em uma overdose calculada de açúcar no sangue, após tomar 38 refrigerantes de diferentes marcas e pertencentes a uma única empresa. Seu nome ninguém nunca soube.
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