Exilada - 07/2015

Minha terra não tem nada
Nem palmeira ou sabiá
Não tem floresta ou primores
Só tristeza e o meu pesar

Nossas várzeas são estradas
E o asfalto queima a pele
Pele negra aqui escalda
Pele índia nos expele

Minha terra não tem nada
Nem comida ou escola
Tem futebol, é bem verdade
Não tem pão, mas se tem bola

E os menino aqui são crack
E cocaína, são também
Logo, logo são bandido
E não vai sobrar ninguém

Minha terra tem protestos
Panelaço e discussão
Tem esquerda e tem direita
Muito lado, e a direção?

Em cismar sozinha à noite
O que faço é chorar
Minha terra eram palmeiras
Onde estão os sabiás?

07/2015

Pano

Mila é uma boneca de pano que está chorando na sala da própria casa. Mas não entenda mal, não é sempre assim. Mila foi ensinada a sorrir desde criança. Ao ser criada, foi preenchida com muito amor. seus criadores a amaram muito.
Com o tempo, novos donos surgiram para brincar com ela. A cada novo dono, a boneca possuía uma nova sensação de plenitude; de preenchimento. Mas essa sensação sempre ia embora ao final de alguns meses, junto daquele cara que a trocava por uma Barbie qualquer.
O estranho era que Mila não chorava nesses momentos. Ser Plano B já era parte do seu cotidiano. Ela foi usada, largada, jogada no lixo. E estava tudo bem. Tudo certo.
Mas, se não importava, por que então agora a boneca está aos prantos? Por que sua respiração ressoa como o trovão que anuncia a tempestade do lado de fora? Acontece que Mila não quer mais ser boneca, quer ser gente. E ninguém a ensinou como fazer isso. A frustração ferve em seu sangue.
Claustrofóbica, a boneca abre a porta da varanda e deita do lado de fora, sentindo os primeiros pingos da chuva molharem suas pálpebras. Eles se misturam às lágrimas e logo a garota consegue camuflar seu choro. Ela é capaz de se sentir derretendo, fundindo-se com chão. Sente-se deixando tudo que viveu para trás, para trás, para trás...
Depois de um tempo, abre os olhos apenas para constatar que - fisicamente - ainda está intacta. Nem um pouco derretida. Os pingos são somente água, Mila. Não há muito para onde correr.
Mila ainda é uma boneca de pano e ainda chora na varanda. A única diferença é que percebeu o quão sozinha está.



Julho 2015