(Im) possibilidades

    Não quero que soe como se entre a minha existência e a sua, houvesse, a meu ver, uma grande sentença condicional: eu só existo SE você existir. 

    Não pense que os sons que saem da minha boca, elaborando sentenças e explodindo em voz alta, se direcionam somente aos seus ouvidos.
Minhas pernas infinitas são fora do meu alcance. Se expandem em múltiplas direções, como se lutassem para não perder uma única oportunidade. Os cabelos crescem, os músculos se retraem, as unhas se desenvolvem. Eu sou ossos e sangue. Sou carne e suor. Sem você, sou completa dos pés à cabeça.

    Mas há um certo aperto que me dói as juntas. Talvez seja a onda fria de inverno que começa a tomar os ares da cidade, percorrendo casas que obrigam janelas fechadas. Há uma taquicardia que me pega desprevenida nos últimos tempos. Não é a dor de paixão em amar algo e perdê-la aos poucos durante uma estação. Nem tampouco o vazio que nos invade quando deixamos de ter algo que anteriormente era nosso. É a dor das (im)possibilidades que foram construídas ao longo desse tempo.
    

    Certos dias, a gente divaga. A gente imagina futuros distantes que poderiam ser realidade, mas que sabemos serem dificilmente concretizados. Construímos diálogos inteiros - anos completos - nas conexões construídas por nossos neurônios, e que predizem freneticamente sonhos de longa data através de sinapses nervosas. Você nunca foi divagação. Sua imagem em meus espelhos e na minha mente sempre vieram acompanhados de um breu profundo. Seu olhos contorcidos em um longo ponto de interrogação que me trava a imaginação. Sem ideias de sim ou não.

    Quando você se desfaz diante dos meus olhos, como o gás de cozinha que apaga depois da chama, me pergunto se o cheiro de metano algum dia se esmorece, ou se permanece impregnado em minhas narinas. O cheiro do que não foi domina os espaços que habito, brigando por lugar com o cheiro do que poderia ter sido. As narinas filtram incessantemente, o cérebro se acostuma a todo tempo, procurando dormência onde há sensação. Nada adianta. Eu recito a todo instante:

Sem você,
Existo bem. 
Sem mim,
Existes também.
Mas que mal faria
Existir em nós?

    Esses versos me consomem. Como se não soubesse que o futuro de existir em nós, nada mais é do que as ilusões de criança que me sobem à cabeça. Às vezes dói pensar no longo fio da minha vida que deixará de cruzar com o seu. Às vezes não. Somos o instante fugaz que desaparece num truque de mágica. Mas a taquicardia continua. Não queria que a realidade fosse outra. Só queria um não certeiro. A sensação fixa e forte de que nada de muito importante foi perdido. Queria me dessenssibilizar de você.

11/06/2021

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