Café à brasileira - 28/10/2018


      Querido leitor,
      Conto-lhe agora o que vivi hoje na minha mesa de café da manhã:
      Acordei bem cedo, após os sons da cidade começarem a me acordar. Em meus sonhos, havia beijado minhas paixões, reencontrado velhos amigos e tomado incríveis decisões sobre minha carreira profissional. Levantei, é claro, extasiada e de um excelentíssimo humor, como resquícios de meus devaneios noturnos.
      Mas ao sentar na mesa e ligar a televisão, vi que saía uma fumaça verde e amarela do meu copo de café. As brasileiras partículas subiam em círculos. Correndo, correndo, correndo, ficavam tontamente nacionalistas. E quanto mais o vento soprava, mais dispersas elas ficavam. Achei incrível observar o movimento delas: sempre em círculos, sempre se chocando, querendo ocupar todo o espaço da sala de estar. Sempre seguindo uma ordem inconsciente naquela aparente aleatoriedade. Não importa o que aconteça, elas sempre mantêm o padrão, sem nunca preocuparem-se em realmente observar o...
Meu Deus, perdoem-me. Não há porquê divagar sobre a fumaças coloridas e xícaras quaisquer. O querídissimo leitor com certeza possui atividades mais interessantes. Dito o meu perdão, me calarei e simplesmente darei um gole no meu café amargo.

28/10/2018


    Queima - 10/2018

    Ela fez uma lista de todos os defeitos e qualidades que ele tinha. Enumerou a teimosia, a risada, os silêncios de afeto e os silêncios de raiva. Descreveu as boas recordações, cada uma das brigas e cada um dos momentos marcantes até o dia em que finalmente terminaram.
    Ela fez listas e listas, longuíssimas páginas preenchidas. Sua caneta preferida perdeu a tinta no meio, mas não fez mal.
    Quando finalmente acabou, releu tudo. Sentiu todo o amor que se perdeu no caminho e todas as mágoas que se acumularam. Sentiu todo o carinho que ele merecia e toda a frustração por não ter dado certo. Meu Deus, era tanto pra ter dado certo.
    E então, depois de ler e reler, teve certeza absoluta de que em algum momento da história, eles realmente tinham sido almas gêmeas. Teve certeza de que em algum momento ele realmente havia sido dela; havia amado como ela amou.
    Internalizou essa certeza.
    Depois queimou.
    Queimou os papéis.
    Um
    A
    Um.



    Outubro 2018

    14/10/2018

    "Qual a probabilidade de João chegar ao destino que deseja?", me pergunta o colégio. Resposta: dois elevado a 10.
        De todas as perguntas feitas em matemática, essa é a única que me faz chorar de frustração.


    KKKKKKKKKJKK


    14/10/2018

    Sobre Pretérito Perfeito - 14/10/18

    Semáforo verde:
    Se viram, 
    Acenaram, 
    Cruzaram, 
    Se amaram. 

    Num susto, 
    Trombaram, 
    Caíram, 
    E fim. 


    14 Outubro 2018

    Sentidos e direções - 12/10/2018

          Em alguma realidade paralela, existe uma gigantesca sala de aula, perfeitamente limpa, com um imenso globo de plástico exatamente no centro. Mas nessa realidade, globos não são como os nossos. Nessa realidade, eles revelam o passado, organizam o presente, ditam o futuro. Nessa realidade, todos ouvem o que os globos têm a dizer sobre o mundo em que vivem.
          Esse globo especificamente, contém toda a complexa expansão do universo e todos os astros que estão se afastando. Há nossa silenciosa galáxia, nosso perfeito sistema solar e, por fim, nosso planeta e os seus 6 continentes. Lá, em um pixel do globo, estão todas as Américas. Depois, caçando bem com um microscópio encontra-se o Brasil.
          Moram milhares e milhares de pessoas ali. Elas vivem, opinam e discutem por causa cenário político atual. Algumas ardem de raiva no meio do dia, enquanto outras choram de medo na calada da noite.
          Em alguma existência paralela, existe uma sala de aula. Nessa sala, entram uma criança e uma professora de história. A professora fica horrorizada quando, num susto, a criança começa a brincar de girar velozmente o globo e deixa os habitantes desorientados, trombando todos entre si, sem saber a direção.

    Portas Abertas - 11/10/2018



    Amei-o entre um café e outro,
    Entre o contraste rouco,
    Dos raios de sol,
    E os escuros no meu peito.

    Amei-o desajeitadamente
    Desajustadamente
    Nas trôpegas passadas
    Que fingiam segurança.

    Amei-o como quem nada quer,
    Com desejos de mulher
    E ações de uma criança.

    Tão perdida,
    Tão faltada,
    De coisas nunca antes precisadas
    E somente encontradas
    Em nossas bocas misturadas


    Amei-o sem ter mais jeito
    Impossível ser desfeito
    O mundo que ele me deu.

    Era preciso amá-lo. 
    Era preciso cuidá-lo. 
    Era preciso tê-lo.
    Sim, amei-o...

    Mas desamei-o. 
    - desarmei-o.
    Desalmei-o.

    Fui eu a fechar a porta
    Mas também fiquei nublada
    Dentro da casa bagunçada
    Que construímos com cuidado.

    A casa de concreto
    Com fundações de baralho.

    As tempestades derrubaram
    As cartas maleáveis
    Me deixando nua 
    exatamente no centro.

    E foi nesse momento,
    nesse exato momento, 
    Encolhida,
    revolvida de frio 
    Revolvida de vento,
    Que arrependi 
    de ter te deixado entrar,
    Pra início de conversa.

    11/10/2018

    Brasil

    Primavera foi só:
    Alegrias,
    Alegorias,
    Alergias.
    Enquanto todos aproveitavam o dia
    Algo ria 
    entre as flores.
    Mas era só o inverno chegando.


    11 Outubro 2018

    Liberdade - 10/2018

            Num Domingo de tarde, Isadora das Dores causou um alarde. Sem briga e sem birra, a besta da bambina beijou a família, bicicletou a bicicleta e fugiu, por entre os feirantes de feira do fim da semana. Preocupados e perdidos, seus pais procuravam-na, aos gritos, pra poder entender que endoidamento esquisito era esse.
          Mas lá - leve e longe - as lamúrias da família não amolavam as lembranças da loira menina. Ela só corria. Respirava risada. Rogava por divertir. Amar. Conhecer. Comunicar.
    A garota gostava de gostar do mundo; tinha gana por ganhar o mundo. Mas enfim independente, sentindo o vento em seu fronte quente, seu exclusivo desejo curioso era... gozar de um prazer curioso.
          Tido isso em mente, estacionou e tateou-se toda à procura de um trocado. Contudo, não achou nenhum. Secretamente, sabia que seu desejo somente isso seria: um sonho. Não ponderou seu dinheiro quando disparou e disse adeus à distante família. Considerou dar a volta na trilha. Mas por sorte e maravilha, mirou a manhã e a alguns metros, encontrou: uma moeda. Meio miúda, meio velha. Não valia muito. Mas valia mil.
          E então, nas verdes barracas, que fervilhavam de vorazes viajantes atrás de comida, a menina viveu pela primeira vez a vida, e sorveu um sorvete.
          E seus lábios lambendo... Lentamente... As laterais da casquinha... Causaram curiosos arrepios nas curvas da espinha.
    Ah! Que prazer! Que fuga! Que liberdade...



    outubro 2018