O alto da construção não lhe parecia tão alto. De lá, conseguia ver contra as luzes dos postes o ar denso e turvo que se aproximava do asfalto. Seu corpo lhe parecia insignificante frente as serras de prédios que se somavam à sua frente. Mas ainda sim muito perto do chão. Nessa noite, não havia escolhido um dos milhares de arranha-céus que tomavam o horizonte, como fazia nas outras noites. Havia escolhido uma casa em construção, com um total de 5 andares espaçosos e amplos. Jajá sabia que essa casa devia ser de alguém bem rico, com provável influência dos altos magnatas da indústria dos minérios. Pensou se estaria incomodando. Mas tal qual as outras noites, suas pernas se moviam sozinhas.
Subiu no telhado. Havia apenas uma pequena estrutura de madeira onde conseguia apoiar seus pés. O resto do teto ainda permanecia abstrato e imaterial, no aguardo de concretos e estruturas e fundações bem estabelecidas para ser finalmente completado. O pequeno quadrado de teto que havia, servia apenas como ponto de apoio para a lona que recobria toda a construção. Jajá pensou que provavelmente, aquele concreto não havia estabilidade nenhuma. O pensamento fez com que vertigens lhe subissem o estômago e ele engoliu em seco. Olhou para baixo. Sentiu o peso de toda a gravidade do mundo atuar em seu intestino. O alto da construção de repente lhe pareceu, de fato, muito alto. Mas a vertigem também estranhamente lhe instigava para a beirada. Experimentou um pé para fora da estrutura. Seu sapato de couro ali pairou, sendo o único foco de sua visão. O fundo da construção lhe parecia um grande borrão. Voltou com o pé para o madeirite. Respirou fundo. O coração a mil. Piscinas de suor lhe empapavam a blusa social. Passou a mão no cabelo bem lentamente. Com cuidado, desceu pela lateral do prédio.
Ainda aéreo, quase não notou que alguém lhe assoviava quando chegou em chão firme. Um homem de uns 25 anos se encontrava recostado em um dos cantos da obra. Uma barba de semanas lhe ocupava o rosto, as roupas lhe serviam de forma estranha, como se não fossem feitas para moldar seu corpo. Segurava em sua mão um grande cachimbo fedorento, que quase fez subir lágrimas aos olhos de Jajá. O trabalhador logo torceu o nariz. Nunca conseguiu entender como rapazes vigorosos e produtivos eram capazes de declarar falência a si mesmos dessa forma. Quase conseguia ver com seus olhos cansados por detrás das roupas amarrotadas e pele manchada. Os órgãos se deterioravam. Os ossos rachavam aos poucos. O homem apontou com o cachimbo para o alto.
- Me diga meu homem, que você fazia lá?
- Eu...que lhe importa?
- Nada me importa. Mas a pergunta permanece.
-.
- Bem, de qualquer forma, você pretende voltar por aqui?
- Não sei.
-Se voltar, faça favor de me avisar para que eu feche os olhos.
-Fechar os olhos?
- Você não é o primeiro que vem aqui não. Os altos de construção sempre chamam os encarcerados, os libertos e os suicidas. Vez ou outra, consigo adivinhar a qual categoria cada louco pertence. Mas algumas me são incógnita. Nessas vezes, fecho os olhos para caso seja a terceira alternativa. Já me bastam de corpos esmigalhados no chão. Só o barulho já me dói os ouvidos.
- Alguém alguma vez já caiu daqui?
-Algumas quedas não são acidentais, veja bem.
-Entendo. Mas não sou uma incógnita. Não sou um suicida.
-Bem...
-O quê?
-É que liberto não lhe parece um bom rótulo e aprendi com o tempo que suicidas e encarcerados por vezes compartilham das mesmas ideias.
Jajá se retirou, sem não lhe responder nada. Caminha para casa. Enquanto perpassa pelas ruelas de asfalto e as bibocas que lhe rodeiam, pensa no homem que encontrou na construção. Lembra dos olhos que lhe encaravam. E por alguns instantes um arrepio lhe sobe a coluna, quando nota que olhos do rapaz refletiam quase perfeitamente seus próprios olhos cansados.
UMA PESQUISADORA DESEMPREGADA QUE ERA DO DPTO DE MANIPULAÇÃO NO MES DA REV CULTURAL
UM SUICIDA - EMPRESA DE EXTRAÇÃO DE MINÉRIO DE FERRO NO BRASIL
UM DROGA ADITIVO
UMA MAGNATA - DESCENDENTE DO UICA LIBERAL DE MERDA
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