Homens de Espinho e Mulheres Despidas

 Sentada aqui olhando pro nada. O livro que você me emprestou (excelente, aliás) jaz fechado entre minha mão e a mesa que agora repouso. Comecei a leitura hoje, há exatos 23 minutos, quando senti falta de você. Cada uma das sentenças se perde pois imagino suas mãos percorrendo os mesmos lugares que a minha. Crio em minha cabeça a narrativa paralela à história, composta de cenários e expressões que são exclusivos seus. A leitura não me flui. Cada palavra que meus olhos tocam, me direcionam aos seus olhos. A cada forma do livro à qual minha mão se ajeita, imagino se suas mãos se ajeitaram da mesma forma. E provavelmente não. Suas mãos são opostas às minhas; tenho dedos longos e magrelos, como se fossem feitos à extensão dos meus braços. Seus dedos são curtos e inchados, como grandes balões de oxigênio que se incham para suprir as mil e uma atividades que você faz ao longo do dia. São mãos complementares. Seguram o livro de forma diferente. 

    Com você, a paixão é algo novo. Um sorriso bobo me percorre as juntas e eu sei que você é a causa principal. Um frio no estômago me atinge, como se as palavras que você diz, jamais tivessem sido dirigidas a mim anteriormente por outras paixões quaisquer. Me sobem tremores. Meu corpo fica inquieto. Um fantasma longíquo dos medos bobos de menina me assolam o peito e me pergunto em silêncio se quero, de fato, estar vulnerável novamente.

    Veja bem, homens são ensinados a machucar. Isso pode ser percebido quando eles levantam seus punhos e cumprimentam uns aos outros com pequenos socos. Quando se fazem megafone para gritar mais alto que uma multidão. Você percebe nos abraços inadequados. Nos ranger das colunas quando se inclinam para envolver alguém. Os ombros tensionam, os braços enrijecem. Há um medo implícito, como se estivessem à espera de uma punição por tal ato. As lágrimas secas, os suspiros inaudíveis, os sentimentos não ditos. Cada vez que se fecham, cada vez que se guardam, criam uma aresta pontuda e áspera em suas camadas. Muitas vezes, homens machucam por simplesmente serem feitos de espinhos.   

     E aqui não digo dos homens que querem machucar; que se postam nos semáforos orgulhosos de suas marcas, aceitando que toda a sua existência será resumida a isso. Aqueles que usam seus espinhos como armas empunhadas, como se dissessem "ei, se tenho feridas, por que você não tem também?". Eu digo dos homens ordinários e aos montes, completamente alheios à própria existência. Homens que jogam seus casacos por sobre os ombros e omitem as cicatrizes até que alguém chegue perto o suficiente para vê-las. Todos eles são ungidos em ácido, uma bomba relógio pronta para explodir a qualquer instante.

    Enquanto isso, nós, mulheres, somos ensinadas despir. Às vezes, nos despimos em quartos seguros, em meio a uma louca confusão de roupas e falatório incessante, cercadas por tantas outras que nos apóiam e fazem rir durante horas a fio. Às vezes, nos despimos após algumas taças de vinho, acalentadas por braços seguros que permitem nossas unhas cravadas contra eles. Por vezes, nos despimos em alma. Ditam-nos a verborragia inerente aos ingênuos. 

    Mulheres entendem que a força vem do outro. Da rede humana que se encontra atrás de nós, para caso desmaiemos por conta do calor. Sua pele se descasca, nas mãos ressecadas de tanto fazer cafunés e lavar a louça. Adentramos as margens da vida adulta de peito aberto e prontas para amar. O amor é bom, eles dizem. O amor é força, repetem para nós. E nós queremos o amor. Nós queremos a força.

    Quando esses dois mundos se encontram, os homens de espinho e as mulheres despidas, nem sempre (quase nunca) há um resultado em que ambos saem imaculados. Aprendemos isso na adolescência. Quantas mulheres não relatam que os primeiros incômodos românticos aconteceram nessa fase? Quantas não criaram ali, entre os 14 e 18 anos, os traumas e cicatrizes que carregarão o resto da vida? Em contrapartida, homens relatam causarem feridas. Dizem aos montes eram jovens e sem rumo. Se sentem legitimamente mal por terem causado tanto mal. Carregam a culpa de terem rasgado os corações que tão lindamente se postaram frente a eles. Homens de espinho e mulheres despidas, causam rasgos nas peles macias e perfumadas que meninas são ensinadas a cultivar. 

      Eu, fui ensinada a me despir. Você, foi ensinado a machucar. Não há escapatória. É claro que a história não é única. Alguns aparam seus espinhos, outras constroem armaduras ao redor da pele exposta. Com o tempo, as pessoas se ajustam. Os discursos se dissimulam e as feridas não são tão evidentes. Às vezes, longíquas o suficiente para se tornarem histórias de 5 minutos, comentadas rapidamente em uma mesa de bar. Mas as últimas feridas causadas em minha pele foram tão fundas que carrego vincos enormes por todo meu ser. Não há garantias que você não fará o mesmo. Nossas mãos em complemento não deixam expostos os calos que tive depois de lavar ele da minha alma. Os olhares direcionados a você não evidenciam as olheiras que carreguei após as noites de insônia pensando em como raios me resolveria. A narrativa paralela é linda, mas é abstrata e imaterial, diferentemente do livro que você me emprestou para ler esse mês.

    O fato de eu gostar tanto dos seus olhos me assusta pois não sei como farei se precisar fugir num pulo. Se seus espinhos ferirem minha pele, novas cicatrizes se abrirão, fazendo companhia à constelação que já carrego em meus ombros. 

26/05/2021

Loja de departamento

Pontuado, havia pontes.
Os manequins distantes
Encontravam linhas firmes
De azulejo e granito.

Pontuado, havia pontas
de coração a coração
Que descamavam o plástico 
E exibiam o ferro.

Linhas tortuosas que desciam as escadas
Luzes flutuantes que subiam elavadores
Risadas de leve que segredavam piada.

Antes, havia pontes.
De cada víscera exposta
Aprendi a amá-las.
E aceitar os vincos que sulcavam o plástico.

Quando os azulejos se foram
As luzes flutuantes se apagaram
E o ferro exposto se tornou espinho,
Não soube voltar atrás.

E cá estava eu, completamente derretida.
Cá estava eu, completamente desmembrada.
De departamento em departamento,
Isolei-me.

23/05/2021

Sobre pé atrás- pt 2

Hoje acordei pensando em você.

Essa única frase
É minha poesia inteira.

A cautela se foi
Quando você chegou.

18/05/2021

Nova muda

Você comprou uma nova muda
Que jurou que ia molhar.
A coitada aqui resseca
E rejeita o novo lar. 

Suas mãos jamais alcançam
O feio e fino
regador.

Elas percorrem suas gavetas,
Suas cordas,
Meu suor.

Sua mão
plantada
na minha.

Você respira baixinho
No mundo pacato
Da nossa conchinha.

A madrugada nos transpassa
Numa calma sem graça
Que nos deixa o silêncio
E nos faz um carinho.

Sua planta da casa:
A cama de solteiro
Num aperto certeiro
Aos moldes que necessito.

A gente fala bobagens.
Sem motivo, hesito
Minhas raízes são profundas
E nem tudo é prescrito.

A gente descobre defeitos
A gente compensa passado
A gente celebra carícias
A gente se encaixa errado.

Minha história
Plantada 
Na sua.

Ainda há um mundo não dito
Entre as mãos
Que agora se tocam.
Não nego.

Mas quando você, esquecido,
Deixa a muda morrer,
Eu digo, "querido,
Deixa comigo."

Eu rego.

06/05/2021