Revestida

Sou revestida dos pés à cabeça:
Cabelo em ondas perfeitamente calculadas,
Os cílios alongados por artimanhas da moda. 

Saio à rua em performance constante
De personas que se fazem
À luz dos olhos que me veem

Sou alinhada dos pés à cabeça:
Nas exatas curvas que me ditam feminina,
Na exata forma que ensinaram a ser.

O leitor desavisado
Prevê certamente 
A anunciação bíblica.

Mas fogem aos olhos as meias coloridas
E as mãos roídas
Que me sustentam em pé.

27/06/2021

(Im) possibilidades

    Não quero que soe como se entre a minha existência e a sua, houvesse, a meu ver, uma grande sentença condicional: eu só existo SE você existir. 

    Não pense que os sons que saem da minha boca, elaborando sentenças e explodindo em voz alta, se direcionam somente aos seus ouvidos.
Minhas pernas infinitas são fora do meu alcance. Se expandem em múltiplas direções, como se lutassem para não perder uma única oportunidade. Os cabelos crescem, os músculos se retraem, as unhas se desenvolvem. Eu sou ossos e sangue. Sou carne e suor. Sem você, sou completa dos pés à cabeça.

    Mas há um certo aperto que me dói as juntas. Talvez seja a onda fria de inverno que começa a tomar os ares da cidade, percorrendo casas que obrigam janelas fechadas. Há uma taquicardia que me pega desprevenida nos últimos tempos. Não é a dor de paixão em amar algo e perdê-la aos poucos durante uma estação. Nem tampouco o vazio que nos invade quando deixamos de ter algo que anteriormente era nosso. É a dor das (im)possibilidades que foram construídas ao longo desse tempo.
    

    Certos dias, a gente divaga. A gente imagina futuros distantes que poderiam ser realidade, mas que sabemos serem dificilmente concretizados. Construímos diálogos inteiros - anos completos - nas conexões construídas por nossos neurônios, e que predizem freneticamente sonhos de longa data através de sinapses nervosas. Você nunca foi divagação. Sua imagem em meus espelhos e na minha mente sempre vieram acompanhados de um breu profundo. Seu olhos contorcidos em um longo ponto de interrogação que me trava a imaginação. Sem ideias de sim ou não.

    Quando você se desfaz diante dos meus olhos, como o gás de cozinha que apaga depois da chama, me pergunto se o cheiro de metano algum dia se esmorece, ou se permanece impregnado em minhas narinas. O cheiro do que não foi domina os espaços que habito, brigando por lugar com o cheiro do que poderia ter sido. As narinas filtram incessantemente, o cérebro se acostuma a todo tempo, procurando dormência onde há sensação. Nada adianta. Eu recito a todo instante:

Sem você,
Existo bem. 
Sem mim,
Existes também.
Mas que mal faria
Existir em nós?

    Esses versos me consomem. Como se não soubesse que o futuro de existir em nós, nada mais é do que as ilusões de criança que me sobem à cabeça. Às vezes dói pensar no longo fio da minha vida que deixará de cruzar com o seu. Às vezes não. Somos o instante fugaz que desaparece num truque de mágica. Mas a taquicardia continua. Não queria que a realidade fosse outra. Só queria um não certeiro. A sensação fixa e forte de que nada de muito importante foi perdido. Queria me dessenssibilizar de você.

11/06/2021

Uma carta de outono

Meu corpo é a massa frágil que recobre a minha presença.
Eu presido.
Eu existo.

Te escrevo essa carta para lhe contar das dores que esses peitos cinzas carregam, e das pequenas frustrações diárias que navegariam em seus glóbulos vermelhos a toda velocidade. Digo-lhe respeito do mundo feio e áspero que impõe brutas alergias aos corpos que o habitam. Essa carta-poesia é um metapoema, que exibe a você minhas próprias dores de gente cinza. E a anemia que sustenta meu corpo.

 Minha pele é plástico filme: fina, transparente. Tenta não abrir brechas. Não sucumbir jamais. Vez ou outra ela rompe, em espinhas inflamadas ou em cortes distraídos, que me doem a cabeça. Vez ou outra ela sangra, como se protestasse as mágoas que lhe inflijo dia após dia. Minha pele engrossa a cada marca que lhe faço, em cicatrizes desordenadas que compõem quem sou.

Sou uma casa inabalável.

Você, de pele imaculada, não saberia a sensação. Essa carta-poema ressoa no abismo entre nossos corpos. Reverbera as burrices que nos trouxeram até aqui e as lágrimas indiscriminadas que caíram quando finalmente me vi seca por completo. 

Meu estômago me expele garganta afora,
meu pulmão expulsa o ar como se a ele não pertencesse,
meus pelos se encravam num protesto silencioso.
Vãs tentativas de me expulsarem de mim.

Sou uma casa inabitável.

Claro, não que você seja capaz se sentir, mas lhe escrevo esta carta poesia pois não quero que doa.  Quero que entenda que jamais foi sua culpa. Se nunca habitei em mim mesma como você poderia fazer? 

Você se esvai.

Desliza sutilmente pelos caminhos feitos para te receber. Os caminhos ácidos traçados por mim ao longo das eras que vivi. As hostilidades sustentadas para jamais poder ser plena por completo. 

Você se esvai.

Ações egoístas
Às vezes
São as mais altruístas. 

O amor mais curto
E mais sincero que já senti.
Amei a ti
Como a mim mesma.

Você me invade
E eu presido
Você escorre
E eu sou líquido.

Meu bem,
Quando você se foi,
Parte de mim morreu pra sempre.

Mas te lavei no banho
como se fosse
um mês qualquer.

08/06/2021