Meu corpo é a massa frágil que recobre a minha presença.
Eu presido.
Eu existo.
Te escrevo essa carta para lhe contar das dores que esses peitos cinzas carregam, e das pequenas frustrações diárias que navegariam em seus glóbulos vermelhos a toda velocidade. Digo-lhe respeito do mundo feio e áspero que impõe brutas alergias aos corpos que o habitam. Essa carta-poesia é um metapoema, que exibe a você minhas próprias dores de gente cinza. E a anemia que sustenta meu corpo.
Minha pele é plástico filme: fina, transparente. Tenta não abrir brechas. Não sucumbir jamais. Vez ou outra ela rompe, em espinhas inflamadas ou em cortes distraídos, que me doem a cabeça. Vez ou outra ela sangra, como se protestasse as mágoas que lhe inflijo dia após dia. Minha pele engrossa a cada marca que lhe faço, em cicatrizes desordenadas que compõem quem sou.
Sou uma casa inabalável.
Você, de pele imaculada, não saberia a sensação. Essa carta-poema ressoa no abismo entre nossos corpos. Reverbera as burrices que nos trouxeram até aqui e as lágrimas indiscriminadas que caíram quando finalmente me vi seca por completo.
Meu estômago me expele garganta afora,
meu pulmão expulsa o ar como se a ele não pertencesse,
meus pelos se encravam num protesto silencioso.
Vãs tentativas de me expulsarem de mim.
Sou uma casa inabitável.
Claro, não que você seja capaz se sentir, mas lhe escrevo esta carta poesia pois não quero que doa. Quero que entenda que jamais foi sua culpa. Se nunca habitei em mim mesma como você poderia fazer?
Você se esvai.
Desliza sutilmente pelos caminhos feitos para te receber. Os caminhos ácidos traçados por mim ao longo das eras que vivi. As hostilidades sustentadas para jamais poder ser plena por completo.
Você se esvai.
Ações egoístas
Às vezes
São as mais altruístas.
O amor mais curto
E mais sincero que já senti.
Amei a ti
Como a mim mesma.
Você me invade
E eu presido
Você escorre
E eu sou líquido.
Meu bem,
Quando você se foi,
Parte de mim morreu pra sempre.
Mas te lavei no banho
como se fosse
um mês qualquer.
08/06/2021
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