Seguridade

 A gente se forma a partir de algumas certezas.

É certo, por exemplo, que após um minuto vem o outro.

E logo em seguida um outro dia.


É certo que a gente nasce,

Cresce,

Desenvolve.


Temos certeza do dente doendo nos dias de frio

E certeza do rosto queimando nos dias de asfalto quente 


A gente sabe das alegrias que nos atingem

E dos amores que se apressam desenfreadamente


E gente sabe que certas dores virão.

É inevitável doer. 


Talvez sejam as mudanças repentinas

Ou talvez a solidão que pega despreparada no dia de hoje.


Mas nessa noite esvazio-me das certezas.

O buraco que se forma é imenso.


Se a seguridade se perde, o quanto sobra de mim?

Um coração bate?

Unhas que crescem?


As certezas se vão pois nunca fizeram nada por mim.


Esvazio-me da certeza de um novo dia

Na esperança de que caso ele nasça

Me regojize como se fosse a primeira vez.


19/09/2021


8/11/2021

 Minha alma deixou meu corpo por completo aos exatos 15 anos e 4 meses de idade. A primeira vez que transei com alguém.  Era madrugada e dormiámos no chão. Lembro que foi inesperado. Enquanto o beijava, pensava na minha calcinha feia e na calça jeans que apertava na altura da canela. Perdi minha alma naquele dia. 

      Suas mãos ansiosas percorreram minhas roupas à procura do meu corpo. E me pergunto se era meu corpo que se queria de fato. Se aquelas mãos não procuravam outra coisa, mas me acharam primeiro.  Se aquelas mãos não estavam à procura de um sorvete gelado, um afeto qualquer, um corpo de outro alguém. Me pergunto se as mãos ansiosas não queriam provar um ponto a si mesmas, de que eram capazes de encontrar moradia, e desejando uma moradia silenciosa para ouvir os próprios pensamentos. 

       Gostaria de dizer que tive apreensão, medo ou hesitação. Mas não tive. Gostaria de dizer que pensei, ponderei, escolhi. Mas também não fiz nada disso. Tirei minhas roupas como um fim de dia qualquer. Como se já tivesse feito isso milhares de vezes. E as mãos ansiosas que tanto percorriam, imploravam, pediam para serem donas de mim, me encontraram desarmada e completamente insossa. Odiei cada segundo.

Foi ali que entendi que certas marcas a gente carrega pra sempre. Certos traumas nos pegam entre um espirro e outro, enquanto analisamos a arquitetura da cidade. Às vezes eles nos tomam em meio a um novo amor, completamente inocente e alheio à toda carga em nossos ombros. E lábios. E pescoço. E coxas. 

     Minha alma se foi, e junto dela a indecisão. Demorou anos, mas finalmente faço o ponto final. Há certos toques que não permito mais. Certos olhares. Proibir me tirou o explorar. Mas permaneço viva, vívida e consciente. Uma mulher como outra qualquer.

8/11/2021



4/11/2021

      Ainda me dá ansiedade. Ver rostos trafegando sinais e os sinais verde amarelo vermelho dos tráfegos de carro. As cabeças fervendo sob o sol de rachar no meio dia. O bigode suado pelo pano que recobre as bocas.

     Carrego essa angústia, uma ausência de certo e de errado que me faz flutuar entre pensamentos e sentimentos aos quais não sei a qual ceder. Não posso me apoiar na legislação. Não posso me apoiar no núcleo familiar. São doenças que se espalham e contaminam as cabeças dos que circundam. A Doença ainda está aí. A vacina já está no meu braço. Por duas vezes, devidamente imunizada. 

     Mas por vezes sinto que carrego em minhas mãos todas essas vidas. Todas as incertezas das informações inconfirmadas, e das repercussões tenebrosas que poderiam surgir. Ainda são 7 mortes por dia no distrito federal. Sete famílias por dia, enlutadas. E eu, que lutei por tanto para me controlar, sacrifiquei todo o progresso da minha saúde mental em troca da saúde coletiva, ainda choro o choro delas. O choro dessas pessoas que andam de cabeça quente pelos sinais.  

     A ansiedade que me toma, vem do peso do coletivo. De entender que minhas mãos ainda se confundem com as mãos delas. E que minha vida pode facilmente se cruzar com a sua. Mas há tantas almas longe das minhas. Tantos corpos que queria abraçar. Tantas dores que agora carrego em meu peito. Sou humana, afinal. Necessito do afeto.Tudo isso. Tudo isso me dá ansiedade.