Todo 28 eu tenho raiva
E renego a mim mesma
Na certeza absoluta
Que meu corpo me rejeita.
Todo 28 eu sofro
Numa simulação barata
De uma maternidade
Que não vejo além dessa mera [simulação
Auto-agressão
Com remédios e água fervente
Pra tentar me expelir e atordoar.
Me cuspo e me exilo
Me esqueço e me odeio
No contrair e descontrair.
E todo 28 eu desrespeito
As raízes que ele é
E a beleza que carrego
Nessa casa que é meu útero.
Cada ciclo que passa
Meu corpo diz
Que tudo bem renovar
Que a gente cresce, constrói, desaba e renasce.
Meu útero é uma árvore
Forte e gentil
Que segue as estações
Pra poder me sustentar.
Meu sangue que desce -
Seus átomos e elementos -
Deixam meu corpo
Do mesmo modo que deixaram centenas antes.
Cada veia que se rompe,
Cada músculo que mexe,
É a perfeita evolução
E um atestado da vida.
Vida somente possível
Por causa da casa
Que carrego dentro de mim.
Meu útero é sagrado.
Meu útero é ancestral.
Dando vida a outro ou dando vida a mim mesma,
É através dele que sou parte dessa Terra.
Quando sinto minhas cólicas
A dor apaga tudo isso.
Às vezes não entendo
Que esse é o jeito que meu corpo tem
De me relembrar que estou viva,
que sou parte de um todo,
E que às vezes a dor
é uma dor que vale a pena.
29/04/2020
Nenhum comentário:
Postar um comentário