Do alto do céu, às vezes, também me esqueço. Mudanças barulhentas ocorrem, explodindo matéria e permitindo que milhares de partículas se ergam do chão e percorram os ares, invadindo o pulmão dos asmáticos. Me esqueço sempre de pensar nas tosses. Me junto às centenas de corpos que admiram novas janelas resplandecentes e novas cores que se verticalizam, sem nunca nem mesmo considerar que algo teve que ruir para que aquilo se erguesse. A gente ignora os processos.
Antes, nunca tive sossego. Mas agora, tento entender que tranquilidade é percorrer os céus, sabendo que ainda sou orgânica e capaz de respirar, mesmo quando me sinto em um breu e que todo o ar do meu corpo foi roubado. Tantas vezes me senti sem ar! Quando os sonhos que construí e que eram fogo queimaram até o fim e se tornaram fumaça antes mesmo de eu me acostumar com eles. Quando me perguntaram de súbito e tive de decidir, num susto, quem eu era. Dores que senti e que me disseram repetidas vezes que iriam passar. E apesar de não querer escutar aquilo, foi a construção de utopia no horizonte, precisa na medida certa para me manter em movimento e tentar alcançá-la. E agora, depois de tanto, sou eu quem afago as mãos dizendo que seu ar ainda vai adentrar seu corpo, igualzinho ao meu.
Se transformar é doloroso. E não é o doloroso que dá pra sufocar com remédios ou álcool; que se assemelha a uma coceirinha em um canto do corpo. Mas é a frustração que nos impede o vôo. É aquela que nos causa um pouso forçado e nos faz duvidar da solidez de cada uma de nossas projeções futuras. Nos faz avaliar e reavaliar cada um dos conceitos e ambições que temos, fazendo refletir se eles são suficientemente bons para estarem presentes nesse novo eu. Nos faz pensar considerar caminhos que nunca antes foram considerados. É uma angústia silenciosa; assustadoramente calma. Sim, transformar dói. Mas depois, se sentir você mesma, pela primeira vez em muito tempo, é alívio.
A cada nova casca que construo dentro do meu corpo, enxergo melhor cada um dos seres vivos. Meus olhos se transformam e aprendo a prestar atenção nos detalhes; a compreender melhor. Cada novo eu sabe confiar ainda mais no canto meu e das minhas parceiras, entendendo que cada canto de disfonia é, também, um canto de poesia. E o quanto cada um de nós - esse seres vivos repletos de energias e tristezas - somos seres sagrados, simplesmente por sermos um mísero pixel desse misterioso conjunto que é o Universo.
Misterioso também por renegar quaisquer muros altos ao nosso redor, sem importar que nossa música que ressoa aos quatro Ventos e denuncia tudo aquilo que nos entristece jamais é compreendida perfeitamente por alguém. E por saber que muros baixos não servem somente para que possamos circular livremente. Eles também existem para permitir que outras coisas se aproximem. Que deixe o sol adentrar meu corpo, então.
Hoje, mais outra vez renascida, sei que nem tudo ficou para trás. Certas bases permanecem para sempre. Mas ainda sei como respirar, mesmo quando sinto que já perdi o ar. E tantas vezes antes me senti sem ar.
26/04/2020
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