Dia a dia

      Às vezes a circunferência do planeta Terra não nos desce a garganta. Ele entala na altura do esôfago, tomando o ar e impedindo a comida. Mas a gente se blinda. Com o tempo, se torna mais fácil ignorar a bolota que nos prende a respiração. A gente se habitua a respirar com dificuldade e a inalar a fumaça que toma conta dos centros da cidade. A gente se habitua a acordar cedo num susto, pular o café da manhã e dar uma paradinha rápida em uma banca de rua só por um cafézinho. A gente se habitua aos ônibus lotados, ao tráfego de pessoas, aos corpos que andam na rodoviária que, um dia, se tornarão indigentes. A gente se habitua às estatísticas nos jornais, que anunciam tristezas e que cobrem os corpos dos que têm o próprio mundo como casa.
      A gente se habitua a não ver o céu, a não respirar fundo, a deixar nossas inconformidades para o fim de semana, porque se é conhecido que quem se inconforma em dia de semana eventualmente perde a cabeça. A gente se habitua às violências diárias, às palavras que machucam. A gente se habitua aos animais extintos, às matas queimadas, às instabilidades políticas e a nunca saber o que vem em seguida.
      A gente se habitua à sensação no fundo do estômago de que alguma coisa está errada, mas sem saber ao certo o que é, a gente também se habitua a sufocá-la. A gente se habitua aos pares de olhos ansiosos, aos pensamentos circulares e às inseguranças. A gente se habitua à exaustão e às notícias de mais um caso depressivo. A gente se habitua à sensação de não se ter liberdade e começa a entender que certos controles da sua vida não são exatamente seus. A gente se habitua a amar e a sentir dores que vão além de nós. A gente se habitua a ver as lágrimas, nos sentir impotentes e torcer ao máximo que seus amores aprendam rapidamente a se habituar também; A gente se habitua a apressar o sexo, a apressar as conversas, a beijar rapidamente e a rir rapidamente. Nada mais dura a tarde toda. 

      De repente, a gente também se habitua a remédios para poder respirar, remédios para o coração bater, remédios para o útero não contrair, remédios para poder viver. E as cervejas dos dias de sábado, de repente, não são simplesmente lazer, elas se tornam... escape. Habituamo-nos a um bilhão de coisas às quais sabemos que não deveríamos nos habituar. E aos poucos, nos moldamos tanto em torno desses hábitos que nos ferem, que nos tornamos mais ferida que pessoa. Nossas palavras são secas como as manhãs em Brasília e nossos olhos já não enxergam. Murchamos cada uma das utopias juvenis e nossas mãos já não sentem. Carregamos no peito a resiliência, enquanto o mundo nos entala a garganta. Habituamo-nos ao nosso mundo adoecido.
      E em certos dias, nos bate o cansaço. Mas a gente continua. A gente continua. Se habitua de novo, de novo e de novo. A gente se habitua justamente porque acreditamos que é o único jeito de continuar. E eu, habituada que sou, já não sei se consigo enxergar a vida de outro jeito.

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