Liberdade - 10/2018

        Num Domingo de tarde, Isadora das Dores causou um alarde. Sem briga e sem birra, a besta da bambina beijou a família, bicicletou a bicicleta e fugiu, por entre os feirantes de feira do fim da semana. Preocupados e perdidos, seus pais procuravam-na, aos gritos, pra poder entender que endoidamento esquisito era esse.
      Mas lá - leve e longe - as lamúrias da família não amolavam as lembranças da loira menina. Ela só corria. Respirava risada. Rogava por divertir. Amar. Conhecer. Comunicar.
A garota gostava de gostar do mundo; tinha gana por ganhar o mundo. Mas enfim independente, sentindo o vento em seu fronte quente, seu exclusivo desejo curioso era... gozar de um prazer curioso.
      Tido isso em mente, estacionou e tateou-se toda à procura de um trocado. Contudo, não achou nenhum. Secretamente, sabia que seu desejo somente isso seria: um sonho. Não ponderou seu dinheiro quando disparou e disse adeus à distante família. Considerou dar a volta na trilha. Mas por sorte e maravilha, mirou a manhã e a alguns metros, encontrou: uma moeda. Meio miúda, meio velha. Não valia muito. Mas valia mil.
      E então, nas verdes barracas, que fervilhavam de vorazes viajantes atrás de comida, a menina viveu pela primeira vez a vida, e sorveu um sorvete.
      E seus lábios lambendo... Lentamente... As laterais da casquinha... Causaram curiosos arrepios nas curvas da espinha.
Ah! Que prazer! Que fuga! Que liberdade...



outubro 2018

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