Atordoados

Acostumaram-nos à fome
Até que nossos olhos se tornassem vazios,
Como os estômagos no semáforo.

Acostumaram-nos ao ritmo
dos aviões disputando com as aves
Lentamente
Os espaços vazios do céu

Acostumaram-nos ao cinza,
Aos prédios quilométricos e ônibus lotados
Claustrofóbicos
Pelos quais nos esprememos por entre tantos iguais a nós.

E agora querem que acostumemos
Às prateleiras dos supermercados vazias
Aos aeroportos fechados
Às caminhadas eventuais filtradas por máscaras,
À desigualdade que se escancara novamente

Não é que exista algum Deus;
Alguma força universal vingativa
Que trouxe nosso karma 
E que está punindo a todos.

É simples.
Nós não estávamos preparados pra uma pandemia.
Nossos olhos, corpos e dia a dia
Se acostumaram à cegueira imposta pela fumaça do tráfego.

Não fomos capazes de enxergar 
Que nossos sistemas falhos
Não deixariam ninguém seguro
como tantos outros falharam antes.

Atordoados,
Estamos vendo nossos erros -
Políticos, econômicos, sociais.
E a culpa desse caos
Jamais foi da doença.

20/03/2020

Subir Bahia

Paralelepípedos quadrados, retângulos  soltos.
Verticalização, sapato gasto.
Você conhece beagá?

Cheiro de fumaça e de café
Meu peito arde de saudades
Do interior que é urbano
De cada esquina da cidade

O trânsito doido sem pista
As fotos 3x4 da estação central
Do nada um grafite intenso
Lado a lado a um sinal.

Ainda lembro a solidão da cidade 
Que me aparece cada vez mais
Mas sinto falta das sombras esguias
E das bancas de jornais

Meus sapatos não gastos já não reconhecem 
Não há os mesmos filmes no Palácio
As luzes do parque incomodam
E a lagoa da Pampulha parece congelada.

Ou talvez seja eu.
Com minhas roupas novas
E os pesares que agora carrego.

Minha vida já não é esta:
Subir Bahia 
Descer Floresta.

Debaixo da pele


      Quando fiz 6 anos, tudo o que me importava eram meus lápis de cor. Eu coloria e coloria, pintando árvores de rosa e céus de vermelho vivo. Não havia regras ou limites, apenas eu e o papel. Foi em um desses momentos, de pura paz infantil, que acidentalmente me machuquei com um lápis de ponta solta. A ponta entrou por debaixo da minha pele, bem no centro da minha palma da mão. O machucado sangrou e sangrou, mas eventualmente se estancou, cicatrizando-se e moldando-se ao redor daquela pequena ponta de grafite que há pouco me machucava.

      Hoje em dia, tantos anos depois, a ponta de lápis permanece no mesmo lugar. Sua sombra é visível a olhos nus e me recorda diariamente daquele infeliz incidente. Certas noites, geralmente após um pesadelo terrível, acordo de súbito e num susto me pego esfregando meus dedos por cima da cicatriz. É indolor, mas de alguma forma me faz sentir viva; real. A ponta é parte de quem sou e das mágoas que senti. 


      Meu maior medo é um dia procurá-la e não encontrá-la. Meu medo é que meu corpo perceba um dia que aquela pequena ponta nem sempre esteve lá, que foi um cuidadoso implante que a vida colocou ali. Meu medo é que meu corpo decida expulsá-la, expelindo-a como o filho renegado que não merece o conforto de um lar.

      Meu medo é que, ao perceber a pequena ponta, ele também comece a reparar em outras partes que estão dentro de mim e que também são símbolos das mentiras que construí sobre mim. E uma vez que ele repare e comece a expulsar pelo pequeno poro da palma da minha mão todas essas incongruências e inverdades, ele só pare quando eu estiver vazia por completo. Uma casca vazia sem certezas e identidades. Porque tudo o que sempre fui foram as mentiras que tão cuidadosamente permiti que também me adentrassem, que deixei minha pele encobrir e se moldar ao redor.

24/01/2020

Big Bang

Quando houve o big bang, dezenas de pessoas correram pra longe e algumas centenas se aproximaram pra ver. O calor foi sentido em cada canto do universo e as ondas cósmicas se encontraram, chocadas e alegres de finalmente se conhecerem:



Oxigênio, Carbono, Água
Marte, Vênus, Terra
Sonhos, alegrias, mágoas

A expansão de cada corpo
Era facilmente avistada
Dentro das pupilas dos meus olhos

Cada pelo e dedo do pé
Sabia que a mudança ocorria
E que nada mais do que era, seria

Minha cabeça em guerra
Meus pés no chão
Meu coração em disforia.

Eu nunca soube o que era uma expansão.

Quando me vi, ali parada,
Me esticando em toda direção

Eu senti em cada átomo -
E em cada célula assustada -
Um big bang no espaço sideral

Pois big bangs começam do nada
E o que era eu
além
de um completo vazio?



25/12/2019