Acostumaram-nos à fome
Até que nossos olhos se tornassem vazios,
Como os estômagos no semáforo.
Acostumaram-nos ao ritmo
dos aviões disputando com as aves
Lentamente
Os espaços vazios do céu
Acostumaram-nos ao cinza,
Aos prédios quilométricos e ônibus lotados
Claustrofóbicos
Pelos quais nos esprememos por entre tantos iguais a nós.
E agora querem que acostumemos
Às prateleiras dos supermercados vazias
Aos aeroportos fechados
Às caminhadas eventuais filtradas por máscaras,
À desigualdade que se escancara novamente
Não é que exista algum Deus;
Alguma força universal vingativa
Que trouxe nosso karma
E que está punindo a todos.
É simples.
Nós não estávamos preparados pra uma pandemia.
Nossos olhos, corpos e dia a dia
Se acostumaram à cegueira imposta pela fumaça do tráfego.
Não fomos capazes de enxergar
Que nossos sistemas falhos
Não deixariam ninguém seguro
como tantos outros falharam antes.
Atordoados,
Estamos vendo nossos erros -
Políticos, econômicos, sociais.
E a culpa desse caos
Jamais foi da doença.
20/03/2020
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