Hoje em dia, tantos anos depois, a ponta de lápis permanece no mesmo lugar. Sua sombra é visível a olhos nus e me recorda diariamente daquele infeliz incidente. Certas noites, geralmente após um pesadelo terrível, acordo de súbito e num susto me pego esfregando meus dedos por cima da cicatriz. É indolor, mas de alguma forma me faz sentir viva; real. A ponta é parte de quem sou e das mágoas que senti.
Meu maior medo é um dia procurá-la e não encontrá-la. Meu medo é que meu corpo perceba um dia que aquela pequena ponta nem sempre esteve lá, que foi um cuidadoso implante que a vida colocou ali. Meu medo é que meu corpo decida expulsá-la, expelindo-a como o filho renegado que não merece o conforto de um lar.
Meu medo é que, ao perceber a pequena ponta, ele também comece a reparar em outras partes que estão dentro de mim e que também são símbolos das mentiras que construí sobre mim. E uma vez que ele repare e comece a expulsar pelo pequeno poro da palma da minha mão todas essas incongruências e inverdades, ele só pare quando eu estiver vazia por completo. Uma casca vazia sem certezas e identidades. Porque tudo o que sempre fui foram as mentiras que tão cuidadosamente permiti que também me adentrassem, que deixei minha pele encobrir e se moldar ao redor.
24/01/2020
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