Debaixo da pele


      Quando fiz 6 anos, tudo o que me importava eram meus lápis de cor. Eu coloria e coloria, pintando árvores de rosa e céus de vermelho vivo. Não havia regras ou limites, apenas eu e o papel. Foi em um desses momentos, de pura paz infantil, que acidentalmente me machuquei com um lápis de ponta solta. A ponta entrou por debaixo da minha pele, bem no centro da minha palma da mão. O machucado sangrou e sangrou, mas eventualmente se estancou, cicatrizando-se e moldando-se ao redor daquela pequena ponta de grafite que há pouco me machucava.

      Hoje em dia, tantos anos depois, a ponta de lápis permanece no mesmo lugar. Sua sombra é visível a olhos nus e me recorda diariamente daquele infeliz incidente. Certas noites, geralmente após um pesadelo terrível, acordo de súbito e num susto me pego esfregando meus dedos por cima da cicatriz. É indolor, mas de alguma forma me faz sentir viva; real. A ponta é parte de quem sou e das mágoas que senti. 


      Meu maior medo é um dia procurá-la e não encontrá-la. Meu medo é que meu corpo perceba um dia que aquela pequena ponta nem sempre esteve lá, que foi um cuidadoso implante que a vida colocou ali. Meu medo é que meu corpo decida expulsá-la, expelindo-a como o filho renegado que não merece o conforto de um lar.

      Meu medo é que, ao perceber a pequena ponta, ele também comece a reparar em outras partes que estão dentro de mim e que também são símbolos das mentiras que construí sobre mim. E uma vez que ele repare e comece a expulsar pelo pequeno poro da palma da minha mão todas essas incongruências e inverdades, ele só pare quando eu estiver vazia por completo. Uma casca vazia sem certezas e identidades. Porque tudo o que sempre fui foram as mentiras que tão cuidadosamente permiti que também me adentrassem, que deixei minha pele encobrir e se moldar ao redor.

24/01/2020

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