Uma carta de outono

Meu corpo é a massa frágil que recobre a minha presença.
Eu presido.
Eu existo.

Te escrevo essa carta para lhe contar das dores que esses peitos cinzas carregam, e das pequenas frustrações diárias que navegariam em seus glóbulos vermelhos a toda velocidade. Digo-lhe respeito do mundo feio e áspero que impõe brutas alergias aos corpos que o habitam. Essa carta-poesia é um metapoema, que exibe a você minhas próprias dores de gente cinza. E a anemia que sustenta meu corpo.

 Minha pele é plástico filme: fina, transparente. Tenta não abrir brechas. Não sucumbir jamais. Vez ou outra ela rompe, em espinhas inflamadas ou em cortes distraídos, que me doem a cabeça. Vez ou outra ela sangra, como se protestasse as mágoas que lhe inflijo dia após dia. Minha pele engrossa a cada marca que lhe faço, em cicatrizes desordenadas que compõem quem sou.

Sou uma casa inabalável.

Você, de pele imaculada, não saberia a sensação. Essa carta-poema ressoa no abismo entre nossos corpos. Reverbera as burrices que nos trouxeram até aqui e as lágrimas indiscriminadas que caíram quando finalmente me vi seca por completo. 

Meu estômago me expele garganta afora,
meu pulmão expulsa o ar como se a ele não pertencesse,
meus pelos se encravam num protesto silencioso.
Vãs tentativas de me expulsarem de mim.

Sou uma casa inabitável.

Claro, não que você seja capaz se sentir, mas lhe escrevo esta carta poesia pois não quero que doa.  Quero que entenda que jamais foi sua culpa. Se nunca habitei em mim mesma como você poderia fazer? 

Você se esvai.

Desliza sutilmente pelos caminhos feitos para te receber. Os caminhos ácidos traçados por mim ao longo das eras que vivi. As hostilidades sustentadas para jamais poder ser plena por completo. 

Você se esvai.

Ações egoístas
Às vezes
São as mais altruístas. 

O amor mais curto
E mais sincero que já senti.
Amei a ti
Como a mim mesma.

Você me invade
E eu presido
Você escorre
E eu sou líquido.

Meu bem,
Quando você se foi,
Parte de mim morreu pra sempre.

Mas te lavei no banho
como se fosse
um mês qualquer.

08/06/2021



Homens de Espinho e Mulheres Despidas

 Sentada aqui olhando pro nada. O livro que você me emprestou (excelente, aliás) jaz fechado entre minha mão e a mesa que agora repouso. Comecei a leitura hoje, há exatos 23 minutos, quando senti falta de você. Cada uma das sentenças se perde pois imagino suas mãos percorrendo os mesmos lugares que a minha. Crio em minha cabeça a narrativa paralela à história, composta de cenários e expressões que são exclusivos seus. A leitura não me flui. Cada palavra que meus olhos tocam, me direcionam aos seus olhos. A cada forma do livro à qual minha mão se ajeita, imagino se suas mãos se ajeitaram da mesma forma. E provavelmente não. Suas mãos são opostas às minhas; tenho dedos longos e magrelos, como se fossem feitos à extensão dos meus braços. Seus dedos são curtos e inchados, como grandes balões de oxigênio que se incham para suprir as mil e uma atividades que você faz ao longo do dia. São mãos complementares. Seguram o livro de forma diferente. 

    Com você, a paixão é algo novo. Um sorriso bobo me percorre as juntas e eu sei que você é a causa principal. Um frio no estômago me atinge, como se as palavras que você diz, jamais tivessem sido dirigidas a mim anteriormente por outras paixões quaisquer. Me sobem tremores. Meu corpo fica inquieto. Um fantasma longíquo dos medos bobos de menina me assolam o peito e me pergunto em silêncio se quero, de fato, estar vulnerável novamente.

    Veja bem, homens são ensinados a machucar. Isso pode ser percebido quando eles levantam seus punhos e cumprimentam uns aos outros com pequenos socos. Quando se fazem megafone para gritar mais alto que uma multidão. Você percebe nos abraços inadequados. Nos ranger das colunas quando se inclinam para envolver alguém. Os ombros tensionam, os braços enrijecem. Há um medo implícito, como se estivessem à espera de uma punição por tal ato. As lágrimas secas, os suspiros inaudíveis, os sentimentos não ditos. Cada vez que se fecham, cada vez que se guardam, criam uma aresta pontuda e áspera em suas camadas. Muitas vezes, homens machucam por simplesmente serem feitos de espinhos.   

     E aqui não digo dos homens que querem machucar; que se postam nos semáforos orgulhosos de suas marcas, aceitando que toda a sua existência será resumida a isso. Aqueles que usam seus espinhos como armas empunhadas, como se dissessem "ei, se tenho feridas, por que você não tem também?". Eu digo dos homens ordinários e aos montes, completamente alheios à própria existência. Homens que jogam seus casacos por sobre os ombros e omitem as cicatrizes até que alguém chegue perto o suficiente para vê-las. Todos eles são ungidos em ácido, uma bomba relógio pronta para explodir a qualquer instante.

    Enquanto isso, nós, mulheres, somos ensinadas despir. Às vezes, nos despimos em quartos seguros, em meio a uma louca confusão de roupas e falatório incessante, cercadas por tantas outras que nos apóiam e fazem rir durante horas a fio. Às vezes, nos despimos após algumas taças de vinho, acalentadas por braços seguros que permitem nossas unhas cravadas contra eles. Por vezes, nos despimos em alma. Ditam-nos a verborragia inerente aos ingênuos. 

    Mulheres entendem que a força vem do outro. Da rede humana que se encontra atrás de nós, para caso desmaiemos por conta do calor. Sua pele se descasca, nas mãos ressecadas de tanto fazer cafunés e lavar a louça. Adentramos as margens da vida adulta de peito aberto e prontas para amar. O amor é bom, eles dizem. O amor é força, repetem para nós. E nós queremos o amor. Nós queremos a força.

    Quando esses dois mundos se encontram, os homens de espinho e as mulheres despidas, nem sempre (quase nunca) há um resultado em que ambos saem imaculados. Aprendemos isso na adolescência. Quantas mulheres não relatam que os primeiros incômodos românticos aconteceram nessa fase? Quantas não criaram ali, entre os 14 e 18 anos, os traumas e cicatrizes que carregarão o resto da vida? Em contrapartida, homens relatam causarem feridas. Dizem aos montes eram jovens e sem rumo. Se sentem legitimamente mal por terem causado tanto mal. Carregam a culpa de terem rasgado os corações que tão lindamente se postaram frente a eles. Homens de espinho e mulheres despidas, causam rasgos nas peles macias e perfumadas que meninas são ensinadas a cultivar. 

      Eu, fui ensinada a me despir. Você, foi ensinado a machucar. Não há escapatória. É claro que a história não é única. Alguns aparam seus espinhos, outras constroem armaduras ao redor da pele exposta. Com o tempo, as pessoas se ajustam. Os discursos se dissimulam e as feridas não são tão evidentes. Às vezes, longíquas o suficiente para se tornarem histórias de 5 minutos, comentadas rapidamente em uma mesa de bar. Mas as últimas feridas causadas em minha pele foram tão fundas que carrego vincos enormes por todo meu ser. Não há garantias que você não fará o mesmo. Nossas mãos em complemento não deixam expostos os calos que tive depois de lavar ele da minha alma. Os olhares direcionados a você não evidenciam as olheiras que carreguei após as noites de insônia pensando em como raios me resolveria. A narrativa paralela é linda, mas é abstrata e imaterial, diferentemente do livro que você me emprestou para ler esse mês.

    O fato de eu gostar tanto dos seus olhos me assusta pois não sei como farei se precisar fugir num pulo. Se seus espinhos ferirem minha pele, novas cicatrizes se abrirão, fazendo companhia à constelação que já carrego em meus ombros. 

26/05/2021

Loja de departamento

Pontuado, havia pontes.
Os manequins distantes
Encontravam linhas firmes
De azulejo e granito.

Pontuado, havia pontas
de coração a coração
Que descamavam o plástico 
E exibiam o ferro.

Linhas tortuosas que desciam as escadas
Luzes flutuantes que subiam elavadores
Risadas de leve que segredavam piada.

Antes, havia pontes.
De cada víscera exposta
Aprendi a amá-las.
E aceitar os vincos que sulcavam o plástico.

Quando os azulejos se foram
As luzes flutuantes se apagaram
E o ferro exposto se tornou espinho,
Não soube voltar atrás.

E cá estava eu, completamente derretida.
Cá estava eu, completamente desmembrada.
De departamento em departamento,
Isolei-me.

23/05/2021

Sobre pé atrás- pt 2

Hoje acordei pensando em você.

Essa única frase
É minha poesia inteira.

A cautela se foi
Quando você chegou.

18/05/2021