Olheiras

 Suas olheiras eram exatamente a última companhia que esperava pra hoje. Pensei que contos de fada e textos escolares ocupariam o assento em que você agora está. Tantas vezes antes esperei com anseio por seus olhos que me contentei com suas olheiras. Mas nunca foi a mesma coisa de adentrar sua alma pela pupila e perder-me na complexa mistura de eus e vocês que queria enxergar. Suas olheiras eram grandes bolsões roxos que me travavam para o vácuo e aos poucos me deixavam sem ar. Achava que sem ar era sinônimo de empolgação. Suas olheiras sugavam meus olhares e gestos; minhas expectativas e ambições. Construí castelos imensos que suas malditas olheiras nunca foram capazes de apreciar.

Com o tempo, aprendi a diferença entre olheiras e olhares. Deixei-te para trás. Hoje, com suas olheiras me encarando mais uma vez, elas se encontram com as minhas. Você nunca soube, mas elas sempre estiveram aqui também.


14/10/2020


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