17/02/2020

 Não queria que os silêncios fossem tão intensos para mim. A ausência de carros na rua; a capacidade de ouvir ecoar perfeitamente uma folha planando e atingindo o solo. Queria ouvir conversas atribuladas, sentir o cheiro de carbono em meus cabelos e elevar minhas mãos e voz em meio a uma manifestação. Queria sentir meu corpo suado percorrendo o centro da cidade para sentir o gosto de um sorvete em um dia de sol. Em casa, em meu silêncio torturante, não posso deixar de pensar a ironia disso tudo. Logo nós, a geração instantânea. Logo nós, filhos dos milissegundos, estamos frente a frente com o ritmo letárgico que esse período impõe. É claro que para alguns, a ausência de atividade de metade da sociedade implica o dobro de ritmo para eles. Mas ainda me surpreende as cidades-fantasmas que se tornaram os grandes centros urbanos. 
As paredes azuis que me circundam nesse exato instante, pintadas há pouco pelas minhas próprias mãos, possuem irritantes manchas e falhas, criadas pelo meu olhar vadiante que percorre esse cômodo. De novo. De novo. E de novo. Esse azul piscina, que de repente toma a cena, se assemelha cada vez mais ao movimento das ondas. Meu olhar vai e vem. O azul vem e vai. E de tanto ir e vir no meu olhar, me sinto submersa no oceano profundo, tal qual as lembranças das praias que morei em Santos.
O azul me toma e me molha. Um frio penetrante arrepia minha pele. Meus pulmões são pequenos, dentro de um enorme rolo compressor que os machuca lentamente. É um afogamento em plena seca de Brasília. A água me abraça e me contorna. O movimento me puxa e me empurra. Meus movimentos são silêncio. Meu respirar desesperado é silêncio. A água abafa cada som meu. Não há carros, protestos, suor ou carbono. Há somente água.
Esse silêncio que comprime tem nome, endereço e forma. A pandemia que nos embala não nos assusta somente pela certeza das infecções, crise econômica e mortes. Nos deixa também de peito pesado todas as incertezas que ela carrega. Perguntamo-nos, abismados, como um ser invisível a olhos nus é capaz de fazer estragos tão imensos em nossas vidas. Em toda a história, nunca nenhum de nós presenciou um barulho tão silencioso.

17/07/2020

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