Frankenstein

Minhas mãos eram cálice.
De superfície plana
Pra sustentar você.

Bebendo delas,
Gotas vieram, pessoas foram,
Te acusando de errar
Por sua inércia de gravidade

Mas minhas mãos eram concha
E armadura dourada
Que pintei em cada milímetro de pele seu.

Minhas mãos eram base
Os pilares e sustento 
Para que você jamais tivesse de cair.

Minhas mãos eram água
Da água benta mais santa
Que benzia consciência
depois de tantos pecados.

E quando bem protegido
E aquecido e bem lavado
Precisei que me amasse,
E abraçasse as mãos cálidas que criei pra você.

Somente para você.

Mas você nunca me amou.
E minhas mãos calizadas,
Criadas a seu molde,
Não me serviram de nada.

Quando eu quis ir embora
Em partes porque me machuquei
Em partes pra te machucar
Joguei com seus erros da forma que tantos outros fizeram.

E que dor que senti
Num orgulho, também,
Quando percebi
Que a armadura que eu mesma ajudara a criar

Ainda era reluzia em ouro,
Capaz de ofuscar a quem ousasse chegar perto.

E que meu ir
Não causou o menor buraco,
Nem o menor suspiro,
Em seu dourado reluzente.

A criatura,
Afinal,
sempre vence o criador.

06/07/2020

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