Fé - 18/08/19

Queria que Deus me amasse.
Que me abraçasse como filha,
Como ovelha perdida,
Que retorna ao seu céu


Queria um amor infalível,
Divino, aprazível,
Um amor que me amasse,
Que fosse além de mim mesma


Queria que Deus me amasse.
Queria ser digna da minha própria oração
Ter a cabeça nas nuvens
E ter os pés no chão


Queria o amor certeiro.
Queria um futuro certeiro.
Queria não ter medo.
Queria ter fé...


18/08/19

Sobre brindes - 06/07/2019

UM BRINDE! UM BRINDE!
À todas as vezes
Que nos beberam à última gota
E nos quebraram 
Como taças de cristal.

06/07/2019

Doce dum biscoito - 30/06/2019

      Era uma quinta feira à tarde do mês de Dezembro. Logo a mulher estaria de férias para visitar a família no Natal. E como sabem, o Natal é uma das datas mais odiadas pelos adultos solitários.
      Vejam bem, o problema dos natais não é o peru mal temperado ou o estúpido primo que achou maravilhosa a ideia de colocar maçãs no meio da salada de maionese. O problema do Natal é a família em si.      Todos aqueles rostos familiares, todas as recordações dos seus anos dourados em que você tinha um aparelho dolorido na boca e dezenas de dermatites por todo o seu corpo. As recordações da época em que você realmente era capaz de viver. De quando os sonhos e ambições pipocavam tal qual as espinhas inflamadas em sua testa.
      O calor infernal de Dezembro estranhamente mixava com um período inexplicável de chuva. As gotas atingiam a janela do lado de fora, das quais a mulher estava protegida pelas paredes da cafeteria e pelo ar condicionado que combinava perfeitamente com os olhares acidentais que trocou com o cliente da cafeteria.
      Enquanto observava, a mulher achou que talvez fosse a chuva mais estranha que já vira cair. A queda d'água estranhamente a lembrava de uma cachoeira. A água caía morna e fervorosamente. Fria, pelos medos. Quente, pelas possibilidades. A umidade infiltrava em cada rocha que podia; dominava cada musgo que alcançava. As raízes das plantas espalhavam-se por toda a superfície, fazendo parte de sua estrutura. A umidade atingia cada minúsculo nervo daquele sistema. 
       Um súbito vento inesperado sopra e a água fria é mais fria agora. Nesse momento, desafiando todas as leis já existentes da física, a água inverte seu sentido. O de cima para baixo se torna de baixo para cima agora. A água sobe em uma velocidade tão rápida que em apenas alguns segundos o leito está vazio, completamente seco. Toda a água fica contida em apenas alguns metros quadrados, bem no topo da cachoeira. Mas a pressão daquele par de olhos castanhos e os 32 dentes, expostos e sorrindo, é muita. 
      A água não consegue ficar retida. Ela explode, a uma temperatura de 44ºC: é um sorriso incontido.

30/06/2019

Pinta Preta - 29/05/2019

Era dia de almoço.

Olhei seu pescoço
À procura
Da pinta preta conhecida:
Não encontrei.

Enquanto mastigava
Forçada
A pimenta malagueta 
Que tinha no meu prato,
Soltei de uma vez
Que sem a pinta não dava
Que eu não era feliz.

Com seu rosto triste,
minha boca ardia.
Implorava, pedia:
Desejava algo além
Mais completo
Que aquela curta queimação.

29/05/2019