Doce dum biscoito - 30/06/2019

      Era uma quinta feira à tarde do mês de Dezembro. Logo a mulher estaria de férias para visitar a família no Natal. E como sabem, o Natal é uma das datas mais odiadas pelos adultos solitários.
      Vejam bem, o problema dos natais não é o peru mal temperado ou o estúpido primo que achou maravilhosa a ideia de colocar maçãs no meio da salada de maionese. O problema do Natal é a família em si.      Todos aqueles rostos familiares, todas as recordações dos seus anos dourados em que você tinha um aparelho dolorido na boca e dezenas de dermatites por todo o seu corpo. As recordações da época em que você realmente era capaz de viver. De quando os sonhos e ambições pipocavam tal qual as espinhas inflamadas em sua testa.
      O calor infernal de Dezembro estranhamente mixava com um período inexplicável de chuva. As gotas atingiam a janela do lado de fora, das quais a mulher estava protegida pelas paredes da cafeteria e pelo ar condicionado que combinava perfeitamente com os olhares acidentais que trocou com o cliente da cafeteria.
      Enquanto observava, a mulher achou que talvez fosse a chuva mais estranha que já vira cair. A queda d'água estranhamente a lembrava de uma cachoeira. A água caía morna e fervorosamente. Fria, pelos medos. Quente, pelas possibilidades. A umidade infiltrava em cada rocha que podia; dominava cada musgo que alcançava. As raízes das plantas espalhavam-se por toda a superfície, fazendo parte de sua estrutura. A umidade atingia cada minúsculo nervo daquele sistema. 
       Um súbito vento inesperado sopra e a água fria é mais fria agora. Nesse momento, desafiando todas as leis já existentes da física, a água inverte seu sentido. O de cima para baixo se torna de baixo para cima agora. A água sobe em uma velocidade tão rápida que em apenas alguns segundos o leito está vazio, completamente seco. Toda a água fica contida em apenas alguns metros quadrados, bem no topo da cachoeira. Mas a pressão daquele par de olhos castanhos e os 32 dentes, expostos e sorrindo, é muita. 
      A água não consegue ficar retida. Ela explode, a uma temperatura de 44ºC: é um sorriso incontido.

30/06/2019

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