"Você nunca vai ser paga", eles dizem. Eles dizem que o dinheiro vale mais que a minha alma. E que alma é coisa de criança. Eles dizem que eu me dobro como a roupa limpa recém-guardada na gaveta, sem enxergar que me estico como tábua de passar aguentando o calor. Dão a mim o rótulo de empoeirada e dizem que eu pertenço à escuridão pequena e contida que me foi designada ao armário. Dizem que sou inevitavelmente futuro fracasso; o caminho fadado aos erros.
E eu sou a falha. Trabalhei para o diabo dia sim dia não ao longo dos anos. Cometi erros por desequilíbrios que não sabia que carregava. Me contorci noites a fio para poder entendê-los. Às vezes, num instante mais rápido que o sol, me pego lembrando das vezes que não me levantei quando deveria. Das horas que passei mentindo a mim mesma porque era mais fácil que assumir a verdade. Dos minutos que deixei o mundo engatar um pouco mais perfeitamente dentro dos trilhos enferrujados e tenebrosos que o fazem girar em torno de si mesmo.
"Não se pode abraçar o mundo com as pernas", eles dizem. Tem dias que é difícil amar o mundo quando suas pernas são tão pequenas e ele é tão grandioso. Às vezes alguém que carrega óleo em suas mãos, limpando e engrenando trilhos fora do lugar é atropelado de súbito; nocauteado como um lutador de UFC que se distrai por um único instante. O mundo passa por cima como se sua vida não importasse. Devorando seus cheiros, sonhos e emoções. Ele estraga a sua pele. Te compele a danificar seus órgãos vitais. O mundo te engole.
Tem manhãs que sou Ismael em Moby Dick. Um pequeno marujo deglutido por uma imensa baleia branca; desbravando territórios desconhecidos que me apontam o quanto ainda não sei. Eu batalho com olhos abertos e uma confiança inabalável. Mas às vezes é difícil perder a paz. Desbravar territórios me gasta as energias e me toma as noites de sono. E então eu desisto. Navegando à deriva. Novamente um erro atrás do outro."É só uma fase", eles dizem. Sem notar o desespero que me assola e a respiração entrecortada que domina o meu corpo. Sem saber que o cansaço constante é parte de mim. O Brasil é só uma fase, eles dizem. Mas todos sabemos que estamos todos errados. Burros são aqueles que se iludem e burra sou eu que sei a verdade e mesmo assim escolho o lado mais fraco.
Quero ser o mar que balança agitado para acompanhar a tempestade. Que os outros sejam tempestade. Que sejam a nuvem de gás que é dispersa por toda a atmosfera. Que engasguem na poluição e precisem chorar. Que despejem lágrimas ao chão, fruto inevitável da gravidade. Que espatifem contra a Terra. Deixe que se fragmentem e aprendam a se erguer sozinhos. Permitam que eu possa apenas lhes mostrar o quanto eles podem se nutrir. Transformem-se. Cultivem-se. Contorçam-se em longas árvores que tentam novamente chegar ao céu, que uma vez foi perdido. Deixem de ser água e sejam vida. Eu sempre serei mar. Distante de uma relação simétrica, somos imensidões jamais completamente compreendidas. Mas quero que saibam o quão imensos podem ser. Assim como eu procurarei essas respostas em outros.
Eles dizem que jamais vou ser feliz. Mas escolhi minha carreira porque eu a amo. E se pudesse escolher de novo, escolheria de novo. E de novo. E de novo. E mais uma vez. Talvez as frustrações, limitações e impotências realmente me peguem de jeito nessa caminhada, logo mais ali na frente ao virar a esquina. Mas eu sou autêntica. E ninguém jamais vai poder tirar isso de mim.
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