Punição Portuguesa

 “Eu escrevo para me organizar. Me perceber como a minúscula peça do grande quebra cabeça que é o mundo. Escrevo para ver minhas mãos mexerem, derramar-me nas páginas, me contorcer do avesso, me permitir ser vulnerável. Eu escrevo pra fluir. Para tentar enxergar alguma linha a ser seguida no emaranhado de fios de lã que cercam e embolam meus pés. “

Todo autor tem uma resposta padrão para quando perguntam por que ele escreve. Apresento-lhe a minha. Apesar dessa pergunta ser tão frequente a ponto de geralmente exigir que um escritor sempre carregue na manga uma resposta, essa pergunta sempre me mexe buracos negros que ainda não foram explorados. Ela dá uma pontada no estômago. Uma pontada tão rápida que frequentemente confundo com a indigestão da pipoca que comi, ou da cerveja que tomei. Rapidamente, eu solto, de prontidão, a resposta pronta que elaborei ao longo dos anos. Pronto, a pontada se esvai. Respondo de uma forma clara e genérica o suficiente para que o assunto se encerre ali, mas íntima o bastante para que a pessoa não me ache indelicada. 

A verdade, escondida e fragmentada por toda a extensão do meu âmago, juntamente dos choros sem significado e ambições não ditas, é que não sei por que escrevo. Sei que as palavras escapam pelos meus dedos quase como se tivessem vida própria. Sei que as frases, períodos e acentos se encaixam perfeitamente como se conversassem entre si e eu fosse uma mera transcritora. Não, não uma mera transcritora. Uma transcritora incrível, capaz de entender e dar significado à conversa e, esperançosamente, transmitir a outras pessoas. Minha transcrição dos meus próprios escritos é tão boa que, às vezes, sinto que sou parte deles. Como se eu, em toda a minha pequena existência de quebra-cabeça, fosse um texto por completo. Como se eu, Silvia, fosse uma palavra inteira, de vogais e consoantes, sílabas e hiatos, signos e significados. Cuidadosamente planejada dentro de um livro científico ou rabiscada displicentemente na margem de um caderno. Esses são os dias bons.

 Nos dias ruins, a gramática me foge, me expulsando da língua brasileira. Somos irmãs discutindo pela luz acesa no quarto compartilhado. Somos namoradas que brigam por quem deveria ter lembrado de molhar as plantas. A língua se fecha contra mim, em um filme de bang bang onde eu sou a forasteira e o Português o caubói. Ela saca a pistola e atira, acertando-me bem no peito. Nem um milímetro errado. Ela me repreende e me chama de criança pequena; diz que não passei nos requisitos e que infelizmente não posso fazer parte do grupo de brasileiros ali presentes. Ela conta meus erros e diz que sou impura; incapaz de absorvê-la em toda sua beleza e imensidão. A língua me abole, em todos os meus “outdoors”, “fast-foods”, “Taylor Swifts”. 

Ela me pune. Ela se renega, como se dissesse “ei, você que começou com isso primeiro”, e se esvai de minha mente. Me impede de usá-la. Ela é minha mãe, fala que deveria dar mais atenção a ela. Que esse tipo de coisa não se faz com a mãe da gente. Ela me xinga em alto e bom som, diz que preciso urgentemente nesse preciso momento deixar de criar metáforas para responder quando me perguntam por que escrevo e comece a usá-la, de fato, para escrever. Diz que sou procrastinadora. Diz que tudo bem se ela for uma parte do avesso que carrego em mim. Que tudo bem se ela for a linha que me dá cadência. Em dias como esse, a língua estala os dedos na minha frente, me empurra para fora do ninho e me diz sem rodeios que não sou palavra nenhuma. Isso é balela de escritor. Ela aponta para um espelho e diz que eu sou eu. Um ser humano. Mas que isso não diminui meu valor. Como ela, minha importância vem da pequena parte de quebra-cabeça que sou: brasiliense e mineira. Brasileira. Mulher. Latinoamericana.


1/10/2020

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