No bueiro, havia uma barata imunda, daquelas de antenas longas e carapaça dura, dessas que vivem se alimentando dos restos de comida. Tinha medo do sol. Tinha medo de calor e da luz. E quando qualquer ser humano tentava se aproximar, ela se escondia mais ainda nas profundezas que habitava. Essa barata era a plenitude ali, nas imundícies da sua insignificante existência. Havia dezenas, centenas até, de outras baratas como ela.
Mas certo dia, não teve jeito. Uma enchente avassaladora fez com tivesse de deixar seu lar. Perdeu-se de todo o seu ninho, sendo obrigada a subir à superfície. Perdida e com medo, procurou abrigo. Achou um casarão gigantesco, de portas prateadas e paredes tão brilhantes que assustavam a pobre barata. Ardilosa como era, achou uma frestinha na janela: entrou.
Por algumas horas, foi realmente feliz. Havia fartura de alimento, infindáveis sobras de carne, açúcar, migalhas. No chão da cozinha, um retrato de família rachado que o inconsciente inseto simplesmente relevou. Preocupava-se apenas com o rastro delicioso de gordura que seguia pela casa inteira. A barata até mesmo pensou que poderia construir uma família ali. Até mesmo pensou no futuro ali.
Mas em um desses infortúnios da vida, acabou adentrando em um luxuoso quarto de casal no andar de cima. Apesar da enorme cama para dois, posicionada exatamente embaixo da luz principal, havia apenas uma pessoa no cômodo.
Uma senhora, de uns 40 e poucos anos, sentava em frente ao espelho e penteava lentamente seus sedosos cabelos. Era linda, perfumada. Mesmo na menopausa, não havia sequer um sinal de velhice em sua aparência. Nenhum calo, cicatriz ou quaisquer desgastes marcavam sua pele. Era imaculadamente limpa das marcas da vida, exceto pelas olheiras.
Os olhos cansados da senhora, num susto, avistaram a nojenta barata pelo espelho. A barata, num susto, percebeu que foi notada pela nojenta senhora. Tentou fugir, mas a senhora foi mais rápida.
Ágil como somente alguém acostumado a tal ação, a senhora rapidamente pegou o inseto antes que voasse, abriu a boca o máximo que pôde e, antes que até mesmo eu, a narradora da história, pudesse impedir a horrorosa deglutição, engoliu a barata de uma vez só.
Agosto 2018
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