Atribulações

Atribular ao próprio corpo é um dos males da ansiedade. 
E não digo sobre
Coração palpitante
Ou mãos suadas.

Você se põe em estado limite
Opera na linha máxima
Atola cada instante do seu dia
Para não poder respirar fundo.

Pois você sabe que ao respirar
Ao respirar de verdade
Seu pulmão vai falhar 
Como se houvessem pequenos furos no esôfago
E o ar se esvaziasse completo por ali.

12/05/2020

Sobre Argumentar

Eles discutiam
Políticas, paisagens e pedâncias
Das quais não me apetecia:
Éramos fatos independentes.

Mas, sem razão, me fiz cirurgiã,
Abri meu umbigo
E, sem zelo, fiz um buraco
Exatamente no meio.

Deixei que o fato me adentrasse
E que fundisse às paredes do estômago
Para que argumentar fizesse sentido
E para que eu tivesse, novamente,
Alguma identidade.


11/05/2020

Sushi com feijão

Aos imigrantes
Retirantes
Viajantes
Latinos
Trabalhadores sem casa.

Aos que deixam e abandonam 
a própria terra
E rosto
Para criar um inteiramente novo.

Aos que fragmentam 
seus corpos
De coração num canto
E cérebro no outro

Aos que tentam apagar inutilmente
seus nomes e sobrenomes
Pra tentar
Apagar a própria história:

Não esquecer de onde vem
É, também, saber para onde se vai.
E no fundo eu celebro
Não ser capaz de esconder minhas raízes.

Esse sincretismo
É um pouco de mim
Num lugar que agora também é meu.

E esse sincretismo é meu alívio
De saber que ainda reconheço quem sou.
Esse sincretismo
É histórico e lindo.

06/05/2020

Olhos da Cara

Os olhos da cara
Me costuram uma fortuna.
Eram pequenos e puxados, 
Tinham um forte tom de amêndoa e
eles sobre mim me prenderam .

E custei a entender
Que olhos não cobram amor
Nem relação.
Olhos são fogo de palha.

Os olhos daquela cara,
Preciosíssima menina,
Me custaram o mundo inteiro.
Porque não tinha mais nada o que dar
Além de meu eu e minha alma,
Quando ela me disse que olhos
São somente uma metáfora qualquer.

01/05/2020