Manifesto a Parmênides

 Temos em nossas mãos as ferramentas criadas, moldadas e aperfeiçoadas ao longo de séculos e séculos. Ferramentas de apertar parafuso, de bater milkshake, de filtrar a água mais impura, de limpar nossos corpos por dentro. Temos em nossos pés os caminhos traçados e percorridos por nossos antepassados. Os erros que cometeram encontram-se ali, no encontro dos dedos com o peito do pé. Em nossos olhos reside cada reflexão; cada pensamento que um dia tocou um cérebro ou papel e, depois disso, foi responsável por ações inesperadas e fora do script. Cada mudança genética, cada pelo num lugar diferente mostra que um único ser humano é, na verdade, centenas, milhares de seres vivos e não vivos que presidiram e viveram sobre o mesmo chão que nós. 

Veja, eu nunca fui religiosa. Nunca me preocupei com as enigmáticas questões existenciais porque simplesmente nunca acreditei na morte em si. E não digo aqui da mesma forma que hinduístas e budistas não acreditam em morte. A reencarnação acredita que a morte não é o fim, apenas parte de um ciclo. Eu não acredito que ela exista. Nós vivemos eternamente, etereamente, dentro de todos aqueles que um dia conhecemos e interagimos. Talvez nossa consciência um dia se finde, mas nossas ações se perpetuam. Cada relação - brevíssima ou infinita- causa um impacto; transforma o meio. Cada olhar, cada sorriso, cada xingamento. Somos energia materializada em uma organização única e delicada de átomos, células, tecidos e sangue. Somos suor e ossos. Somos os corpos que nos circundam. Somos parte de um todo.

E sendo parte desse todo, não é difícil imaginar que esse todo é parte de nós. Esse todo causa e interfere em nossas alegrias e dias de paz. É esse todo que permite ao nosso peito a sensação de plenitude mesmo quando o mundo desaba lá fora. Esse todo nos diz que a vida continua. As tristezas passam. As alegrias não duram. A vida continua. E o mundo também. Nossos corpos esfarelam e nossas ações perpetuam.

O inventor da roda sou eu também. O primeiro ser humano a construir um sapato. O primeiro a ter empatia. A primeira pessoa que produziu um papel. O colonizador que destruiu os sonhos de alguém. Todos os corpos que sofreram com escravidão. Os escritos sobre a razão humana. Os questionamentos sobre nossa sociedade. Eu sou a primeira pessoa que pisou em terras estrangeiras e sentiu saudades de casa. E, ainda sim, nada sei sobre nada disso. 

Desconhecemos nossa ancestralidade e aprendemos a olhar sempre para o futuro. E mais especificamente, para o nosso futuro. No máximo para o futuro daqueles que nos circundam. Não sabemos sobre passados longínquos. Não sabemos sobre passados de ontem. Renegamos as raízes pois aprendemos a desprezar o antigo. E não quero que entendam que não sou a favor da mudança. Sou muito a favor da mudança. Mas mudar, mudar de fato, é entender o que somo e por que somos o que somos. Senão a mudança é somente miragem. 

Batalhamos ao longo dos séculos para gerar uma quantidade razoável de conhecimento. Entre brigas homéricas de pensamentos divergentes e paradigmas dominantes, fomos aos poucos conhecendo mais e mais, expandindo nossos limites e abraçando o desconhecido. Revolucionamos a nós mesmos diversas vezes e diversas formas, sempre com o orgulho de estarmos caminhando. Um caminhar aparente.

Há uma certa frustração que paira em meu peito quando penso em tudo isso. Acumulamos milhões de palavras escritas e pensamentos verbalizados para no fim, não termos nos movido um único centésimo para frente. A história é como uma grande esteira de academia onde o mundo redondo rola nela, no mesmo lugar de novo e de novo. Nossas mãos ainda carregam calos. As ferramentas são cada vez mais esvaziadas de significado. A água limpa será em breve artigo de luxo. Não aprendemos nada. Movimentos negacionistas se orgulham disso. Alguns não sabem disso. E alguns, como eu, sabem e não fazem a mínima ideia do que fazer com essa informação. 

15/01/2021

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