Tempo e consertos

Aos quinze anos, na primeira vez que eu terminei um namoro, achei que meu coração ia explodir. Minhas mãos tremiam, eu suava, meus pensamentos eram tão confusos que quase não formulei frases inteiras por uma semana. Acreditei nas palavras que saíam de minha boca para minhas amigas quando eu dizia "não, não, não, não. É aqui que acaba minha vida amorosa". Todas as minhas paixões teriam fim ali. É claro que eu estava errada. Não poderia eu saber que 6 meses depois eu já estaria em outra paixão. Uma mais forte; mais concisa. Acreditei que meu coração fosse explodir, mas não explodiu.

A primeira vez que eu falhei comigo mesma, achei que nunca mais seria capaz de me olhar no espelho. Acreditei que meus olhos iriam permanentemente se fechar, como se Deus estivesse me punindo por todos os males que causei, mesmo que inconscientemente. Achei que o carma do universo jogaria grandes e pesadas armadilhas para me derrubar e senti no meu âmago que isso era exatamente o que eu merecia. Não fui capaz de olhar no meu próprio reflexo por semanas, até que um dia me esqueci, levantei a cabeça e lá estava: somente eu. Sem grandes armadilhas cósmicas; sem grandes punições divinas. Somente eu e meus erros expostos em minha expressão de vergonha. Mas ainda somente eu. Juntei o que ainda sobrava de mim e continuei. Achei que nunca mais seria capaz de olhar para mim mesma, mas olhei.

A primeira vez que perdi alguém pra morte, jurei para mim mesma que nunca mais me permitiria ser completa. Quis deixar um vazio dentro de mim, logo ao lado dos meus pulmões, para que jamais fosse possível esquecer aquela pessoa. Em minha mente, soava de algum modo profano e impuro pensar que eu seguiria em frente. Deixar a dor para trás era, de alguma forma, ignorar a ausência que anteriormente era ocupado por presença. Era, dentro de algum raciocínio doido e distorcido, esquecer a morte e esquecer a pessoa querida. Por anos fui capaz de cumprir, mas eventualmente me percebi completa de novo. Sem culpa ou arrependimentos, apenas  com o carinho pelo passado e alegria no presente. Jurei que nunca mais seria completa, mas hoje, sou inteira.

E hoje, com meu peito apertado, minhas mãos inquietas e meu estômago fechado, sem conseguir pensar, respirar ou comer, juro a mim mesma mais uma vez que não sou capaz. Juro que minhas lágrimas são extensão do meu corpo. Talvez tenha sido os amores perdidos, as decepções a mim mesma ou as mortes que me marcam. Talvez tenha sido as formas que segui em frente. Ou talvez não. Talvez tenha sido minha ansiedade. Ou talvez não. Tudo o que sei é que peço ao tempo, aquele que não me abandona jamais, que procure uma nova forma de me curar. Que me dê novamente soluções e sensações que eu possa experienciar de peito aberto. Que me permita, mesmo que por um relance de instante, me entregar à vida e com a certeza de que é o certo. Hoje, acredito em minhas promessas e palavras quando digo que sou incapaz de me curar dessa vez. Que o tempo permita um amanhã diferente.


27/11/2020

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