João Alberto

Corpos falam. Seja no rosto em expressões de paixão, seja nos poros, em momento de tensão. Corpos falam mesmo quando não queremos. Nossos corpos falam quando encontramos alguém completamente diferente e arregalam em espanto. Nossos corpos enrugam quando estamos envergonhados. Nosso sangue esquenta quando estamos com raiva. Eles falam com as mãos, com os ossos, com o estômago.

Os corpos falam e ressoam cada parte de nós. E cada crença que adentra nosso peito. Conhecer nossos corpos é conhecer as vírgulas sociais que orquestram nossa vida. Dos nossos pés à nossa cabeça, nossos corpos são a perfeita interação de nossas mentes e o mundo. E às vezes ignoramos seus sinais. Ignoramos o protesto que nos sobe a garganta e deseja explodir em alto e bom som.

Ignoramos o ímpeto de nossos punhos de se erguerem, juntos a tantos outros. Ignoramos a pontada no peito que nos dói à noite. Deixamos que outros corpos tomem o espaço dos nossos. Deixamos gargantas agressivas ressoem berros desprezíveis. Deixamos que socos sejam desferidos. Permitimos que a pontada no peito seja em um outro peito. Um peito que procura desesperadamente por ar.

Ignoramos nossos corpos pois às vezes ouvi-los implica questionar e ressignificar nossas crenças. Implica ser incomodado pelas vírgulas sociais que ecoam dentro de nós. E, às vezes, é mais fácil se fechar dentro de si. E tudo permanece igual. O controle dos nossos corpos é de outros. O controle do corpo de outros é de terceiros. Permitimos a asfixia. Lenta. Gradual. Fatal


21/11/2020

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