Já coloquei meu casaco mais quente. Minha blusa mais comprida. Minha calça mais confortável. Coloquei meias, pra não ser capaz de sentir. Coloquei luvas, pra não ser capaz de tocar. Coloquei vendar, pra não ser capaz de observar. Mas olho pela janela e ainda vejo.
Ah! Que noite de verão é essa que me rodeia? Vejo carinho, amor, afeto. As luzes da cidade deixam às claras as leves risadas, e os doces flertes; as investidas inseguras. A fumaça dos bares inebria a minha visão, mas ainda posso ver que estão cheios. Circunda no ar o cheiro impregnado da cerveja barata que só um jovem seria capaz de consumir. É uma gostosa sinestesia que compõe a cena desse sábado comum, mas eu permaneço aqui, sentada no frio.
Já não entendo. Quanto mais tento me manter aquecida, mais meu corpo resfria. A cada grossa camada que me recubro, mais longínquo parece o calor que abafa a noite do lado de fora da minha janela. Mais longínquas são as memórias de minha irmã cantando pra mim, enquanto sentávamos no chão morno. Mais longínquas ficam as borboletas do meu primeiro beijo e primeiro amor.
Me dou conta de que talvez as proteções contra o frio também mantenham distantes novos calores. Quando o frio chega ao meu peito, me pergunto se não devo retira-las. Tento e percebo que incrustaram na minha pele. Revestem cada superfície do meu corpo. Me desespero porque sei que tenho medo de retirá-las. Seria doloroso demais. O tempo passa e não as arranco. Sou covarde. O relógio soa. Sou incapaz. Os minutos se transformam em horas.
Sou sozinha.
Lá fora, eles se perdem uns nos outros. Enquanto isso, só preciso achar a mim mesma. O frio que adentra meu quarto me assusta. Ele assusta porque as janelas jamais estiveram abertas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário